domingo, 3 de março de 2013

22 de Fevereiro de 2013

O dia em que conversei com Julius foi um dia definitivo pra mim e pra minha ruína.


O Primeiro Dia no Hospício de São Nicolau
Lar dos Mentalmente Insanos para Reabilitação 

O hospício é um lugar diferente do que as pessoas dizem. Pelo menos no primeiro dia é. Talvez eu devesse esclarecer aqui o que houve para minha estadia no hospício ser iniciada.
No dia 18 de fevereiro eu tive uma conversa relativamente proveitosa com Julius no meio da aula de sociologia. Acontece que naqueles três ou cinco minutos de conversa, a minha querida professora de sociologia escutou a minha conversa com ele e, como Julius estava invisível aos olhos dos outros seres humanos, ela presumiu que eu estava conversando sozinho e me encaminhou para a coordenação. De lá, depois de uma longa conversa sobre a minha conversa com alguém que não existia, eu fui mandado diretamente para a casa de minha mãe e para ela eu não omiti a verdade.
Nossa conversa já começou aos gritos e mamãe não quis saber se eu estava dizendo a verdade ou se estava mentindo, se eu estava louco ou querendo chamar a atenção. Tudo o que eu sei é que depois de muita discussão minha avó entrou pela porta com o meu avô.
- O que ELE está fazendo aqui?
- Viemos atrás do Charles, minha filha. Ah! Aí está você Charles. Por favor querido, faça suas malas, pegue apenas o essencial, precisamos partir o mais rápido possível. Minha filha, por favor, ajude seu pai a colocar suas malas no carro também. Vamos! Andem, andem!
- PAREM! Vocês não vão sair dessa casa com meu filho. Vocês acham que eu enlouqueci!? Charles, por favor, largue essa mala, sua vó não vai te tirar dessa casa.
- Minha filha, escute seu pai - disse Thomas colocando suas mãos sobre as mãos de minha mãe - Eu sei que no passado eu errei, mas precisamos pensar no Charles. Ele corre grande perigo, precisamos tirá-lo daqui.
Minha mãe parou por um segundo e analisou toda aquela cena. Encarou meu avô por mais alguns minutos e assentiu com a cabeça.
- Realmente, Charles, você está em grande perigo. Vá para o seu quarto e faça suas malas; mamãe e papai, vocês fiquem aqui enquanto eu faço minhas malas.
Assim que terminei de colocar apenas o essencial nas malas, como cuecas, meias, blusas, calças, bermudas, objetos de higiene pessoal e tudo mais, eu desci para sala e lá estavam os meus avós sentados no sofá. Logo em seguida veio minha mãe passando direto por nós para o portão. Ela o abriu e cinco homens vestidos de brancos entraram na sala, agarrando Thomas com uma injeção que o fez cair no chão. Vovó começou a gritar e tentou bater nos homens de branco. Mamãe chorava muito e apontou para mim. Senti uma pequena pontada no pescoço e ouvi mamãe dizendo.
- Sim, meu filho estava em perigo. Agora não está mais. 
Com um tremendo baque no chão, eu caí em um sono profundo. 

Algumas horas depois me dei conta que eu estava passando pela porta dos letreiros caídos do lar para pessoas mentalmente insanas de São Nicolau, o mesmo lugar onde estava meu avô por mais de treze anos. Tudo parecia mais assustador do que na primeira vez que entrei lá. Acho que porque da primeira vez eu sabia que iria sair de lá, mas dessa vez não havia saída. 
O corredor principal parecia mais frio do que o normal e dessa vez minha visão era do teto. As luzes passavam rapidamente por cima de mim enquanto minha mãe era levada por um senhor para a recepção. No elevador um homem de terno entrou e ficou do meu lado. Olhou para mim e com um sorriso malicioso disse:
- Vamos nos divertir muito, sabia? Adoro a sua família, acho que é genético, não é mesmo? Mais um Gargiulli para animar a casa. He he, haha!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

18 de Fevereiro de 2013

O fato de não falar com Diego me incomodava ainda mais depois da visita a Thomas. Eu queria poder falar com alguém, mas não existia ninguém com quem falar, eu estava, como sempre, sozinho. Não que eu estivesse querendo a amizade dele de volta, quer dizer, o que aquele idiota fez, não se faz com ninguém. Eu ainda estava com o olho esverdeado e amarelado e minha fama de lunático me perseguia. Toda vez que passava por um grupo de pessoas, eles começavam a cochichar. Podia ver Ana Carolina falando para o Joshua como eu "ainda estava na escola? Não deveria estar internado num hospício a essa hora?" e também tinham os comentários da Júlia Menezes com a Fernanda Olmenstein que podia jurar falou mais alto quando eu passei por elas e escutei que "ouvi dizer que ele estava namorando uma menina que não existia!" e Fernanda respondeu - "ah não! Ela existe, só não sabia que estava 'namorando' ele! Era uma relação de uma só pessoa: Charles e ele mesmo, Kath jamais namoraria um menino desses. Esquisito" - e as duas caíram na gargalhada.
- Oi
Aquela voz doce, eu reconheceria em qualquer lugar.
- Hã... Oi, Kath. Tudo bom?
- Sim! E você, Charles? Como você está? - perguntou colocando o cabelo por detrás da orelha.
- Estou. - e ri um pouco - Acho que estou bem, não estou num hospício ainda, então ... já é um começo.
- Ah! Quanto aquilo que houve com o Diego... bem... eu não tive tempo de vir falar com você sabe, ele estava me segurando o tempo todo. Eu juro que não sei o que houve com ele. Detestei aquela atitude infantil e desmerecedora de qualquer aplauso ou elogio que fosse! Briguei muito com ele e ele disse que não sabe o que aconteceu, que a boca dele abriu e saiu tudo aquilo... ele se arrepende muito, sabe.
- Não creio que aquele idiota esteja arrependido. - eu disse rispidamente - Acho que se ele estivesse arrependido ele teria falado comigo.Não concorda, Kath?
Ela deu sorrisinho meio sem jeito e continuou.
- Eu terminei com ele, sabe? Eu não podia continuar com alguém que humilhasse alguém como você na frente da escola toda.
Não sabia o que dizer. Porque ela estava me contando aquilo? Ela queria que eu tomasse uma atitude? Ou era simplesmente um aviso: Olha, gosto muito de você como amigo e por isso terminei com ele por ter sido um idiota com você. As meninas podem ser tão confusas e nos deixar tão confusos quanto elas. Acho que demorei tanto para responder que ela me deu um beijo na bochecha, disse no pé do meu ouvido "se cuida tá bem, charles? eu gosto muito de você" e foi embora. Mais sinais de que ela realmente gostava de mim ou apenas um sinal de amizade? De qualquer jeito, não existia nada que eu pudesse fazer agora, a sineta e tocou e eu rumei para a sala de Sociologia.
- Hoje trataremos de um tema extremamente importante para o nosso ano letivo e para a vida de vocês. Alguém aqui poderia me dizer o que é sociedade? O que forma uma sociedade? Quais os conceitos de sociedade?
- Eu saberia responder essa, se estivéssemos falando de uma sociedade não humana.
Eu me virei e lá estava, bem do meu lado. Julius estava sentado com as pernas cruzadas, bem do meu lado, ali, como se fosse a coisa mais normal do mundo ter um ser extraterrestre de aproximadamente 1,80cm, com agora uma cor meio verde, eu jurava que ele era meio amarelado na última vez que o vi, e seus grandes olhos me azuis encaravam com curiosidade e bondade. Suas mãos já não estavam mais enrugadas e suas unhas não eram tão compridas. Suas vestes estavam negras. Era um grande manto vermelho que cobria suas vestes pretas e brancas. Ele sorriu de leve e continuou.
- Você sabe o que é uma sociedade, Charles?
- Eu não vou falar com você. Você não é real, não existe, é fruto da minha imaginação.
- Será que sou?
- Sim. É sim.
- Então, diga, como seu avô me conhecia? Como ele sabe a história sobre Ogloom, Demetrius, energia pura se isso foi, apenas... como você disse... um fruto da sua fértil imaginação?
- Então, se vocês abrirem os livros na página noventa e sete verão que ... - ouvi a professora dizer depois do silêncio que se estendeu entre Julius e eu. Olhei em volta e como ninguém parecia notar sua presença ou o fato de eu estar falando com alguém que não estava ali, eu prossegui:
- Se você existe, porque só eu estou te vendo nesse momento?
- Porque é assim que quero, Charles. Essa gente não precisa me ver. Eles não sabem que, apesar de se acharem tão importantes, são um mero nada. Eles se julgam populares e humilham as pessoas que são consideradas estranhas, achando que de alguma forma são superiores. Os seres humanos não passam de uma formiga que é esmagada pelo sapato sem ser notada. Não passam de um vão no meio do universo e acham que são o centro de tudo. Seu povo age como animais selvagens, matando uns aos outros sem motivo algum ou pior, por motivos tão fúteis quanto não conseguir abrir uma lata de picles. Vocês são a raça mais desprezada pelos outros planetas. Não evoluíram nada, absolutamente nada, desde os primórdios da Terra. Vocês continuam a ser aqueles seres que andavam nus e não falavam, na verdade, se tornaram ainda pior. Eles não devem ter o privilégio de me ver.
- Se somos tão ruins assim, porque estão aqui?
- Você.
- Sou mesmo, a fonte de energia da qual meu vô, falou?
- Sim e não. Você não é apenas uma fonte de energia, Charles. Todos somos fontes de energia, de alguma forma, mas somos. Acontece que algumas pessoas nascem com o que chamamos de Energia Pura. Você não vai entender se eu lhe explicar agora, mas você é um Realizador. Está rodeado de energia pura e um dia irá entender como usá-la. Eu preciso que você aprenda isso logo, pois Demetrius quer voltar para cá. Ele despreza os seres humanos mais do que todos nós, mesmo assim, seu desejo de pisar na Terra é insaciável, pois aqui reside a única fonte de Energia Pura conhecida. Você.
Mais uma pausa, a professora agora andava pela sala a procura de espertinhos que não estivessem fazendo o que ela pediu. Abri meu livro rapidamente na página noventa e sete e comecei a copiar a lição, enquanto falava quase que em silêncio com Julius.
- Posso saber se... quer dizer... porque o senhor está me ajudando? O senhor não é servo dele? Não deveria estar ajudando-o a chegar até mim?
- É - Julius deu uma risada poderosa que deveria ter sido escutada a distância, mas ninguém ouviu - Deveria, mas ele me mandou aqui para lhe observar e relatar tudo sobre sua vida, entende? Você deveria continuar a ser um Realizador, não importa o que acontecesse, para que você pudesse manter a energia pura dentro de si. Acontece que você é um garoto excepcional e eu fiz a coisa que mais temia nessa vida, eu me apeguei a você. Você se tornou quase que como um filho para mim... eu... eu o protegi de tantos perigos, impedi tantos acidentes, tudo para que você continuasse vivo...
- Para que eu continuasse vivo até a hora de Demetrius me matar, não é?
- Infelizmente sim. Mas agora vejo que foi um erro, Demetrius está obcecado, não só por você, mas por todo esse planeta imundo. Planeta que se tornou meu lar por longos dezessete anos, Charles. Não posso deixá-lo destruí-lo, não posso deixar com que ele mate você. Por isso avisei sua vó, hoje cedo, para tirar você daqui. Ela vai te ensinar como usar a energia pura, como se proteger.
- Não... não sei o que dizer...
- Não diga nada, apenas faça seu dever. - e apontou para a professora.
Quando me virei, Julius não estava mais lá.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

16 de Fevereiro de 2013

Achei que iriam me enrolar por mais tempo. Foram apenas três dias até que minha mãe e minha avó decidiram me levar até o hospício onde meu avô estava internado. Não quiseram mencionar nem o nome do hospital e durante o caminho não falavam nada.
Pela janela eu podia ver os matos e galhos secos que corriam pela janela enquanto minha mãe acelerava o carro, sempre dando olhadas nervosas a minha vó no banco de carona, e podia ouvir o som do vento. Era tudo muito lindo e vazio, era um monte de nada que me mostrava tudo.
Depois de uns quarenta minutos dentro do carro, o que me pareceu bem menos enquanto observava toda aquela bela paisagem, chegamos em lugar que parecia tremendamente abandonado e assustador. Uma placa em cor vermelha, onde faltavam algumas letras, indicavam o seguinte:
"LAR DOS MEN ALMENTE I  ANOS PA A REABI   AÇÃO"
Entramos cuidadosamente pelo portão, o qual em juro que grunhiu para nós, e passamos por um vasto pedaço de algo que eu jurava, um dia, ter sido um belo jardim, que agora era ocupado pro velhas folhas secas que cobriam por inteiro o chão e levantam quando o vento batia, sacudindo também as arvores ao nosso redor. Alguns passos mais a frente chegamos numa porta, que era a única coisa que não parecia destruída no ambiente, que quando abria nos levava direto para a recepção. Haviam duas mulheres sentadas a mesa com fones de ouvidos que era conectados a um microfone que era ligado ao telefone. Uma delas era muito gorda, loira, com uma verruga gigante sob a sobrancelha, que tinha largos lábios que não paravam de mascar chiclete, e a outra era uma mulher jovem e muito linda, sua pele era morena da cor do chocolate e seu cabelo estava preso por um coque, com lindos olhos dor de mel e as duas pareciam ocupadas, mas a senhora que eu julgava feia foi a primeira a nos atender dizendo:
- Boa tarde! Lar dos Mentalmente Insanos para Reabilitação Santo Eduardo, como posso ajudar? - disse com uma voz que se estendia muito irritantemente.
- Estamos aqui para ver meu marido, Thomas Gargiulli. Meu nome é Gargiulli, Dolores.
- Ele está no quarto setenta e três, no sétimo andar, senhora Dolores.
- Muito obrigada, querida.
Pegamos o elevador velho e sujo que me dava mais medo do que uma maratona de filmes de terror num quarto escuro sozinho, todos em muito silêncio quando mamãe começou a falar:
- Sabe, Charles querido, nós queríamos que você soubesse que bem... han... - encarou a minha vó por alguns segundos e então tornou-se a olhar para mim - o seu avô não fala já faz algum tempo, sabe? Ele desenvolveu certos problemas de comunicação e talvez seja muito complicado de entender o que ele esteja falando. Não se assuste, o.k.?
Paramos na porta do setenta e três depois de passar por um longo corredor, de onde se escutavam berros, gritos de socorro e pessoas que pareciam exasperadas com os guardas do corredor. Dolores abriu a porta cuidadosamente e um médico muito alto se levantou da cadeira e disse que a visita seria feita sob observação, mas que teríamos toda a privacidade do mundo, sua boa seria um tumulo, confirmou o médico gentilmente.
Lá estava meu avô, um senhor com uma cara muito triste, mas que parecia que foi alguém muito jovem e belo no passado, mas que agora exalava cansaço e desapontamento. Ele era um homem alto, mas parecia muito baixo pois estava curvado, seus cabelos eram grisalhos e sua boca parecia muito seca. Seus olhos exibiam anos de sofrimento e abandono e sua orelhas eram extremamente grandes para sua cabeça não tão grande assim, tinha um queixo alongado e a pele cheia de rugas. Muito diferente da minha vó Dolores que tinha seus setenta anos, mas que quase não demonstrava rugas. Vovô estava mexendo seus braços para cima e para baixo, usando o indicador como um pincel a pintar a parede só que sem tinta.
- Thomas, querido - pigarreou a vovó - estamos aqui com uma visitinha a mais, é o seu neto, lembra dele? Charles está aqui, meu amor. Veio te ver.
Thomas se virou cuidadosamente e se aproximou de mim como um animal com medo de sair da sua toca. Nunca senti tanta pena de alguém na minha vida. Ali estava o homem que tentou me matar, quase se rastejando para tentar me alcançar, enquanto estava parado. Ele chegou bem perto e passou as mãos em meu rosto, o acariciando, que leve toque que ele tinha. Depois de um tempinho, ele se afastou e voltou para a parede. Em cima de sua mesa, havia um desenho que se repetia várias e várias vezes. Era um brasão, com  um dragão e guerreiro. Vovô olhava para o desenho e para a parede, como se estivesse tentando passar o desenho do papel para o desenho.
- Vovô - eu comecei a falar - o senhor poderia me falar sobre Demetrius?
Minha vó sorriu de um canto da boca, como se quisesse que eu fizesse essa pergunta desde o momento em que entramos na sala, algo totalmente diferente da reação da minha mãe, que me olhou boquiaberta e com um olhar de fúria que iria me matar assim que saíssemos do prédio. A reação de Thomas, no entanto, foi a que mais me surpreendeu. Ele olhou para mim, diretamente nos meus olhos e se ergueu. Sua coluna estava totalmente ereta e ele parecia ter voltado a razão, como se estivesse... estivesse... lúcido!
- Meu jovem, Charles. Eu não poderia lhe informar sobre Demetrius mais do que você já sabe. Nunca vi esse Demetrius, mas Julius O Mensageiro, me entregou sua mensagem. Ele disse que sua vó - disse apontando para Dolores, a voz de Thomas parecia jovial mais uma vez - seria sua guardiã e que o mestre dele viria lhe buscar quando completasse dezessete anos de idade, Charles. Demetrius vai voltar a Terra, ele vai sair de Ogloom e vai atacar quando você menos esperar, não caia em nenhum dos truques deles e confie em sua vó acima de tudo. Ela vai poder te ajudar e vai dar a vida dela por você. Precisamos que você deixe a cidade e vá para um treinamento para controle de energia, lá você vai encontrar um homem chamado Noberto e ele poderá te ajudar. Eu não posso fazer muito estando aqui, Charles, mas sei que você já é um homem agora, que pode se virar. Eu sinto muito por todo mal que já lhe causei, por tentar, sabe... tentar te... matar quando você tinha apenas um ano de idade. Pareceu-me sensato naquela hora, mas agora vejo que se você tivesse sido assassinado, todos estaríamos perdidos. O mundo precisa de você Charles, tanto quanto você precisa dele.
Ele deu alguns passos, sentou em uma cadeira e ficou me observando, como se nada tivesse acontecido. A porta se escancarou e o médico pediu para que saíssemos, ele teria de estudar o que acontece. Ele parecia tão lúcido e já voltara ao normal. Minha mãe colocou a mão sob meu ombro e fomos em direção ao corredor. Mais uma vez pegamos o elevador do terror e chegamos a saída do local.
Já no carro, vovó disse que conversaríamos quando chegássemos em casa, antes de minha mãe entrar no carro, ela deu uma piscadela e voltou a dirigir. A ida para casa nunca foi tão tranquila e cheia de perguntas.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

13 de Fevereiro de 2013

Chegando em casa eu não espera nada menos do que um belo discurso da minha adorável mãe. Mas ao invés disso a recebi com os olhos cheios de lágrimas e me mandando subir e não sair do meu quarto até que fosse ordenado.
Vindo da minha mãe eu não saberia dizer o que seria pior, mas sabia que com certeza deveria obedecê-la sem questionar, então subi para o meu quarto e lá fiquei até a manhã de hoje. Levantei com a luminosidade invadindo o meu quarto e com o relógio que não despertara. Havia, com certeza, perdido hora de ir pra escola e portanto não haviam motivos para levantar da cama. Fiquei deitado por mais uns cinco minutos quando ouvi algo estranho vindo do andar debaixo. Algo do tipo: "fale mais baixo ou o menino vai acordar!" em tom de um leve sussurro, um sussurro nada baixo.
Desci as escadas na ponta dos pés, pois era óbvio que se referiam a mim quando falando que "o menino vai acordar". Sorrateiramente segui o som das vozes que partiam da cozinha, chegando a porta, que estava meio aberta, eu parei e comecei a escutar a conversa.
- Você não pode ficar escondendo do menino aquilo que está para acontecer. - dizia uma voz trêmula e rouca que lembrava muito da voz de minha avó.
- Eu não vou voltar nesse assunto, mamãe. - disse minha mãe como quem queria dar um basta na conversa.
- Minha querida, preste atenção ao seu redor. As coisas que estão acontecendo; você não acha muito estranho que o garoto esteja escutando essas vozes? Não acha estranho que esteja acontecendo exatamente aquilo que meu marido, seu pai, nos alertou?
- Não-toque-no-nome-do-papai. - mamãe sibilou em tom de puro nervosismo - Sabemos muito bem o que foi que aconteceu com ele. Se o charles soubesse ...
- Talvez seja a hora de eu realmente levar o menino, Helena, talvez esteja na hora de deixá-lo partir. Fazer aquilo que ele nasceu para realizar.
- NÃO OUSE ENTRAR NA MINHA CASA E LEVAR MEU FILHO DE MIM! - mamãe cuspia fúria para todos os lados, seu pescoço nunca estiver tão vermelho - NÃO VOU DEIXAR QUE ACONTEÇA COM ELE O QUE ACONTECEU COM O PAPAI, A SENHORA ESTÁ ME OUVINDO? SERÁ QUE ESTOU SENDO CLARA O SUFICIENTE, MAMÃE? EU O AMO E NÃO QUERO QUE ELE SOFRA ESSE DESTINO, NÃO VOU AGUENTAR PERDÊ-LO! NÃO DE NOVO .... de novo não - abaixou a voz e sentou no sofá, estava chorando.
- Minha filha, já falamos sobre isso...
- Meu filho está sendo tachado de louco mamãe, ele não é a fonte de energia de nada, meu filho está ficando louco e eu preciso de ajuda. Se tudo que a senhora tem a me oferecer é isso, então pode se retirar. - disse dona Helena apontando para a porta.
- Seu pai não é louco sabia? Ele sabe das coisas, aquilo foi um deslize. Charles vai precisar de muito mais ajuda do que um psicólogo, Helena, não será nada fácil, as coisas que estão por vir...
- PRESTE ATENÇÃO MAMÃE - ela voltou a gritar - MEU FILHO NÃO É FONTE DE NADA, ELE É... ELE É, APENAS ESTÁ PASSANDO POR UMA FASE DIFÍCIL. Eu não posso, não agora. ELE ESTÁ PERDENDO A CABEÇA MAMÃE.
A porta se abriu um pouco. Lá estava parado o menino tachado de louco.
- Charles! - exclamou vovó num tom de surpresa.
- Filho - disse minha mãe se virando para a porta - Você ... é ... estava ouvindo isso tudo?
- Ouvi e, certamente, gostaria de ouvir muito mais. A vovó disse que o vovô sabe das coisas, mas vocês sempre me disseram que meu avô morreu. Não era correto, então, usar sabia?
As duas se entreolharam com um certo receio e nervosismo. Poucos segundo depois, que me pareceram uma eternidade, as duas fizeram uma aceno com a cabeça em sinal de concordância e minha mãe voltou a falar, de forma calma e ordenada.
- Em 1989, seu avô estava conversando conosco em um almoço de domingo, toda a família estava reunida a mesa rindo e conversando. Seu avô, Thomas Gargiulli, se aproximou da minha mesa perguntando seu já tinha planejado ter um bebê com meu marido, seu pai. Responde que estávamos seriamente pensando no assunto e que esse fora o tópico de nossas conversas por dois longos meses, seu avô, claro, pareceu muito animado com a notícia e passou a tarde toda comentando o quanto ele seria feliz se tivesse um neto. Alguns anos foram se passando e todo almoço de domingo se tornara a mesma coisa: seu vô se aproximava da minha mesa, perguntando sobre o meu futuro bebê e se esbaldava na ideia de ter um neto.
"Quando ele descobriu que finalmente havia engravidado, ele ficou muito contente e espalhou para todo mundo. Você, antes mesmo de nascer, já era o motivo de felicidade de muita gente, Charles. No dia de seu nascimento, porém, seu avô não apareceu. Ele, de fato, ficou por volta de dois ou três dias sem aparecer para nos ver. Todos estávamos preocupados, mas sua vó dizia para não nos preocuparmos, ainda não.
Depois desses dois dias, seu avô apareceu no hospital em um estado pálido, sem fazer a barba e com cheiro de álcool muito forte saindo do seu hálito. Parou do meu lado e começou a me contar como aquele menino era importante e como ele mudaria as coisas de um jeito que ninguém jamais previa, que deveríamos proteger você a todo custo e que você era puro. Ele começou a me assustar do jeito que começou a falar e então, depois de muito discurso sobre o quanto você mudaria o modo como as pessoas vêem o mundo, ele se afastou tranquilamente, cambaleando e beijando a testa do meu marido. Tentamos ignorar esse fato até que o dia do seu aniversário de um ano chegou."
" Estávamos todos comemorando em muito estilo o seu primeiro ano de vida, Charles e nunca vira você tão feliz. Seu sorrisinho quase sem dentes era um doce de visão e a sua volta não existia quem ficasse triste. Depois de cantado o parabéns, seu avô invadiu a festa. Invadiu não porque ele não havia sido convidado, mas porque ele derrubou a porta e correu em minha direção. Agarrou você do meu colo e começou a correr, colando-o num carro e acelerando cada vez mais, seu avô fez todos na festa tremerem. Seu pai, obviamente, ligou o carro e o seguiu até uma praia deserta onde eles pararam seus carros. De acordo com seu pai, Thomas o segurava no alto das mãos dizendo que, Femetrius, Caterius ..."
- Demetrius - eu interrompi e pedi para que ela continuasse.
- Enfim, ele te segurava nas mãos dizendo a Demetrius que - ela pausou e olhou para mim - como você sabe o nome que ele falou?
- Não importa. Não agora, continue a história por favor.
- Está bem - continuou ela - dizendo que Demetrius não poderia ter energia pura se a única fonte de energia pura estivesse morta. Ele olhou para seu pai e disse para ele não se preocupar, que estava fazendo a coisa certa, que matar você salvaria um mundo inteiro. Graças a meu bom Deus, seu pai conseguiu derrubar Thomas bem a tempo de ele te jogar penhasco abaixo. Claro que como consequência desse ato, seu avô está, hoje, internado em uma clínica para pessoas que são ... bem... loucas, sabe? Entende porque mentimos sobre seu avô? Ele tentou tirar meu bebê de mim, tirar a vida da minha alegria, eliminar você do mundo por causa de uma ideia completamente sem sentido, sem fundamentos. Não existem seres vindos de Ogloom, não existe Demetrius e nem mesmo fontes de energia pura. Seu avô era, e ainda é, um homem fora de si que chegou a era senil e já não fala mais nada com nada. Eu não quero que você acabe como ele, meu filho. Por isso eu nossa família decidimos que seria melhor que não conhecesse seu avô, mas também pensasse que ele estivesse morto para que, assim, pudéssemos evitar perguntas constrangedoras.
Parecia que minha mãe não respirava faia séculos. Ela agora estava ofegante e seu rosto extremamente vermelho, suas veias saltavam para fora do pescoço e ela recomeçou a chorar. Por um instante tinha sentido muita raiva dela. Como pôde minha própria família esconder a verdade sobre meu avô? Ele estava vivo e todos disseram que ele estava morto, mas depois de um tempo senti pena. Ela apenas fez o que julgou ter sido melhor, quer dizer, aquele homem tentou roubar-me dela. Não tive como continuar aquela conversa, mas terminei dizendo o seguinte:
- Quero conhecer meu vô. Sem mais nem menos.
Virei-me sem olhar para as duas e retornei ao meu quarto. Fiquei o dia todo sentado olhando para teto, com vários intervalos para assistir uma televisão, jogar videogame, ler um livro e comer. Contudo, não consegui prestar mais atenção em nada, apenas pensei que tudo aquilo parecia cada vez mais real.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

12 de Fevereiro de 2013

Os dias foram se passando e eu comecei a pisar no pé de certas pessoas na escola. Pisei principalmente no pé do Diego e isso era algo que não podia ter acontecido.

Todo esse tempo, Diego, foi um dos meus melhores amigos e, portanto, sabia tudo que havia para saber sobre mim. Inclusive os meus sonhos e visões que estavam quase me levando a loucura, se claro, já não estivesse louco. O tempo foi passando e nesses poucos dias, Kath, se tornou uma grande amiga. Claro que isso causou grande ciúme no Diego. Ele sempre foi muito ciumento, mas não pensei que iria chegar a tanto.
Um certo dia, hoje, estávamos todos conversando sobre a matéria de matemática e Diego me encarava com aquela cara de que queria me matar. Kath estava com as mãos apoiada sobre meu ombro, Kath era mais alta que eu, naturalmente, e era muito ingênua para perceber o ciúme que isso causava em Diego. Eu não ligava muito, sabia que não tinha nada acontecendo entre a gente e eu respeitava meu amigo o suficiente para não fazer nada que fosse magoá-lo.
Quando tocou o sino, Katherine retirou o braço do meu ombro e foi em direção ao banheiro. Eu e os outros meninos começamos a andar em direção a sala quando ouvimos um grito. Era o meu grande amigo, enfurecido, suas veias saltavam e ele, que não era nada pequeno, veio em minha direção.
- É ASSIM QUE VOCÊ ME TRATA DEPOIS DE TODOS ESSES ANOS? - vociferou.
- Do que você está falando, Diego? - minhas pernas tremiam como nunca.
- VOCÊ ACHA QUE EU NÃO NOTEI QUE VOCÊ ESTÁ CAIDINHO PELA KATH?
- Eu jamais faria isso, Diego. VOCÊ ME CONHECE CARAMBA! - levantei minha voz e rapidamente voltei ao normal - Você é meu melhor amigo e eu jamais faria qualquer coisa para te magoar. Sim, eu sinto algo pela Kath, mas não vou fazer nada porque sei que ela te ama e que você a ama também.
Ele correu em minha direção e me acertou no olho. Nunca pensei que veria uma cena daquela, a escola toda estava me encarando e quando levantei ele ainda não tinha terminado.
- VOCÊ É UM LOUCO! SE AS PESSOAS SOUBESSEM QUEM VOCÊ REALMENTE É....
- DIEGO! NÃO FAÇA ISSO, É PESSOAL, NÃO O FAÇA!!!
- AS PESSOAS OLHARIAM PARA VOCÊ COM OS MESMOS OLHOS SE SOUBESSEM QUE VOCÊ OUVE VOZES?
A escola inteira parou e olhou para mim. No mesmo momento, Lucchese estava me encarando, saindo do banheiro. Me olhou estranho e olhou para Diego. Acho que nem ela estava o reconhecendo mais.
- AAH, ISSO MESMO! ELE NÃO SÓ OUVE VOZES COMO TAMBÉM AS VÊ E AINDA CONVERSA COM ELAS! - ele se agachou bem para perto do meu ouvido e sussurrou- Se vira com isso neguinho.
Todos começaram a apontar em minha direção e a comentar. Os comentários que deveria entrar por um ouvido e sair por outro começaram a entrar e perfurar meu coração. O que está acontecendo com a minha vida? Estava deitado no chão, com um olho roxo e o nariz sangrando, com uma multidão inteira apontando para mim e comentando que eu via e falava com coisas que não existiam. Levantei e fui escoltado pela Inspetora de Alunos, do meu lado, meu grande amigo sorria, satisfeito com seu grande show.

06 de Fevereiro de 2013

Depois do ocorrido que ocorreu (hehe, sou muito engraçado às vezes) eu não pude evitar de me entristecer com meu querido amigo Diego. Contudo não posso culpá-lo, Kath é, realmente, uma menina incrível e apaixonante. Admito que fiquei muito desapontado, pois pensava que ela estaria gostando de mim; as visitas no hospital tinham significado algo para mim, mas aparentemente não significou nada para ela.
O dia seguinte não foi tão diferente do primeiro dia, ainda haviam estudantes que prologaram em mais um dia suas férias e então foi mais gritaria e agitação para tudo quanto é lado. Meus olhos fitavam o outro lado da sala, onde estavam Diego e Katherine num cochicho insuportável para minha mente. Tentei prestar atenção na aula, mas era impossível. Eles pareciam tão apaixonados, em tão pouco tempo, mas às vezes, eu podia jurar que Kath olhava para mim, como se quisesse algo.
A professora de Língua Portuguesa adentrou à sala cinco minutos depois de tocarem o sinal e começou sua falação de sempre. Era alta e muito magra, com óculos que ficavam na ponta do nariz, seus olhos estavam sempre cansados e tristes e seu sorriso nunca foi visto. Era uma mulher muito inteligente e escrevia muito bem, já tinha três livros publicados, e ainda assim era submetida aos alunos que estavam na minha sala. Eram trinta e sete alunos no total (escola pública, né?) e nenhum deles respeitava a Senhora Kim. Ela falava, já sem esperanças, enquanto arrumava seus cabelos negros e brancos, ressecados e com pontas duplas presos em um coque tenebroso. Estava sempre vestida muito parecida; um avental branco, blusas de cores neutras e calças jeans com sapatilhas de cores claras. Não sei o motivo, mas quando comecei a notar o que a professora estava falando eu me desliguei dos dois pombinhos. Resolvi escutá-la até o final da aula. Sem cair no sono.
Após os quarenta e cinco minutos de explicação sobre as regras da escola, que nunca mudam, eu pude finalmente me levantar e correr para o corredor da próxima sala. Não queria me deparar com Diego, nem com a Kath. Percebi que logo isso seria impossível, éramos todos da mesma sala e melhores amigos, tinha que me acostumar com a ideia e deixar acontecer. Se Kath estava feliz, então eu também estava.
No intervalo das aulas eu resolvi me juntar a eles, interrompi o assunto com minha clássica piada: Estavam falando da minha beleza ou inteligência? (enquanto jogava meus cabelos ao ar). Kath riu, e que riso era aquele. Não podia me deixar levar.  Diego me abraçou, arrastando-me para a roda de amigos e eu nunca me senti tão intrometido. Era como se eu não fizesse parte deles, mas ao mesmo tempo nunca me senti tão acolhido.
Ficamos o tempo todo conversando e de repente Diego decidiu se afastar do grupo levanto todos eles juntos, restando apenas eu e Kath, Kath e eu. Não sei o que houve, mas ficamos tanto tempo conversando que chegamos atrasados na sala de aula. O professor de Biologia, Adailton Boa Praça, nos olhou com uma cara muito feia e disse:
- Será que os dois pombinhos podem se apressar em achar os seus lugares?
Diego, no fundo da sala não parecia muito contente. Eu sorri e me sentei, pensando o quanto foi bom esse intervalo. O que fez Diego se afastar, levando todo mundo junto com ele? Não sei bem o que foi, mas gostei que tenha sido assim, foi um ótimo dia, um ótimo dia mesmo.

05 de Fevereiro de 2013

Primeiro dia de aula foi como todos os outros. Uma barulheira infernal vinda de todos os lados, meninas gritando e correndo em direção a suas amigas para em um pulo abraçá-las de pernas abertas, meninos que se xingavam ao ver seu melhor amigo. Um resumo breve do som escutado em todo início de ano seria mais ou menos assim:
" E aí seu viado, arrombado, belê?"
"Fala seu pedaço de merda!" (nunca falam isso, mas me recuso a utilizar o vocabulário usado por eles)
Do outro lado:
" Amigáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! Que saudadeee de vocêe!"
" Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! Tenho muitaaaa coisa pra te contar, você nem sabe!"
Uma pessoa com a mente perturbada como a minha, não suporta o primeiro dia de aula de uma escola pública. Ou particular. Qualquer primeiro dia de aula, para alguém como eu, é uma tortura sem tamanho. Entrei pelas porta verde escura, agora não mais enferrujada, e olhei para as paredes brancas que se encontravam bem no início da escola. Incrível como ano passa e a escola continua a mesma, mesmo tão diferente.
Roberto, Diego e Alexandre vieram, no mesmo momento que me viram entrar, em minha direção para me dar aquele abraço que eu tanto odeio. As meninas também apareceram para formar nosso grupo de amizade, grupo de trabalho e grupo de reclamações. No total eram sete, ou eu achava que eram sete, formavam o grupo: Diego, Alexandre, Roberto, Alexia, Mariana e Taís. Alguns minutos de conversa sobre as férias quando Diego resolve que tem uma notícia para nos dar e que tinha que ser agora.
- Caracas! Parem de fala agora que eu tenho uma notícia daquelas.
- Que foi agora, Diego? - disse Alexia num tom de voz que demonstrava não parecer tão interessada assim.
- Eu, que sou lindo e muito inteligente - risadas o interromperam por um segundo - Com licença, eu que sou lindo e inteligente, para nenhuma surpresa de vocês, estou namorando! - terminou ele com muito orgulho no rosto.
- E quem foi a louca que pensou tudo isso de você? - gritou Alexandre rindo alto demais para que a escola toda pudesse ouvir.
- Gostaria de lhes apresentar, a oitava participante do nosso grupo. a senhorita Lucchese. Katherine Lucchese, minha namorada amada.
Meu coração congelou. Meus olhos vidrados no dela, se desviaram com rapidez. Lancei um sorriso nervoso para os dois e saí andando. Ainda muito atento pude ouvir as últimas duas coisas que eles falaram antes de saírem das mesas em direção à sala de aula.
- O que deu nele? - disse Diego preocupado.
- Pô velho! Você sabe da paixão dele pela Kath!
Kath olhou para mim com aqueles lindos e grandes olhos verdes e eu sumi.

04 de Fevereiro de 2013

Voltei para casa hoje, cheguei era quase hora do almoço. Passei esses dias todos numa cidade litorânea muito pequena, onde minha mãe costumava morar. Para minha surpresa minha querida vó tinha fugido para lá. Ficou algum tempo sem falar para ninguém, mas depois, por algo motivo, convidou-nos para passar uns dias lá.
A cidade era extremamente pequena, tinham por volta de uns dois mil habitantes no máximo e era muito bonita e diferente. As ruas ainda eram de terra, apenas algumas ruas eram cimentadas. A terra das ruas era meio amarronzada, as casas eram feitas de madeira e todas eram muito coloridas e pequenas. As duas maiores casas do local eram a do prefeito, Sr. Maquiel e da minha vó, Helena Gargiulli.
As praias eram muito lindas e com a areia mais limpa que eu já vi, suas areias eram finas - posso dizer que areia é fina? - e o mar era muito salgado e cristalino. Nunca tinha visto uma praia antes. Meus olhos se iluminaram ao pensar como alguém pode ter criado algo tão perfeito quanto a praia? Agora entendia o porquê das pessoas passarem horas num trânsito só para ver a praia. Não era SÓ para ver a praia, era para SENTIR a praia, VIVER a praia. Enquanto o vento seco batia em meus cabelos, eu corria pela praia como uma criança perdida. Meus pais estavam sentados lendo uma revista e conversando, enquanto minha vó apenas me observava atentamente. Reparei que ela me observava de forma diferente agora, como se estivesse planejando algo. Sendo que ela não me amarasse de novo e ficasse gritando comigo usando aquela roupa esquisita, tudo estava muito bem.
Os dias passaram numa leveza que há muito eu não sentia. Nunca vou me esquecer desses dias, os dias que eu fiquei apenas com família, sem amigos, sem internet, sem telefone, sem Julius e sem Demetrius.
O dia que eu vivi.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

29 de Janeiro de 2013

Dia quatro de fevereiro terão início as aulas.
Este era o bilhete que estava pendurado no portão verde escuro, rabiscado e meio enferrujado da escola onde estudo. Dia quatro de fevereiro começarão minhas tão aguardadas aulas. O ano letivo vai começar e, depois de todos os ocorridos, minha mãe decidiu fazer uma viagem. Vou partir hoje, 29 de janeiro, e voltarei apenas no dia 04 de fevereiro.
Depois lhes conto da minha viagem. Prometi a minha mãe que eu não iria encostar no diário enquanto estiver lá. Nada de diário, celular ou computador. Então meu querido diário lindo, até mais ver.

domingo, 27 de janeiro de 2013

27 de Janeiro de 2013

O hospital se tornou uma segunda casa para mim, não tão confortável assim, mas o suficiente para me fazer dormir. Seus corredores já não eram mais tão assustadores assim e as enfermeiras já me conheciam mais do que meus vizinhos (que já devem me conhecer melhor que qualquer um, já que a fofoca rola solta pela minha  vizinhança) e os médicos já haviam simpatizado com minha carinha "doentemente" angelical.
Kath também se tornou uma presença quase que diária no meu quarto de hospital, o que tornava aquele meu ataque em algo positivo e a estadia no hospital muito mais agradável.
Contudo, minhas noites no hospital se tornavam cada vez mais horripilantes. Visitas constantes de Julius não me deixavam dormir nem por um segundo. Tremia toda vez que via sua sombra passa pelos corredores e temi o dia em que ele puxou uma cadeira para o lado da minha cama e puxou também assunto comigo.
- Como você está, menino Charles?
- Quem é você?
- Sou o Procurador, o Investigador, o Servo Fiel. Sou Julius O Perverso! - disse com uma voz que demonstrava bravura e orgulho.
- E veio procurar...?
- Você.
- Mas o que eu fiz? Você vai me matar? Quer dizer, não me matou antes, me auxiliou a me proteger. O que você veio investigar aqui?
- Você é um tipo de energia muito rara, menino Charles. O lugar onde vive, a Terra, é uma das fontes de energia mais fortes que há. Porém, ela é protegida pela sua energia, Charles e não será tocada enquanto você estiver vivo.
- Se é assim, posso saber o porquê de eu ainda estar respirando? - não sei como tive coragem de fazer aquela pergunta, tremia sem poder me controlar.
Ele soltou um risso frio e cínico e continuou - Ora, muito simples! Você é guardado pela sua protetora, a anciã que você tem costume de chamar de Vovó. Ela está há muitos anos aqui na Terra, esperando pelo seu nascimento, o nascimento do guardião. A vovó é nada mais, nada menos do que a mulher que dará a própria vida para salvar a sua vida, Charles. O conselho a selecionou antes do planeta ser habitado.
- Vocês vão matar a minha vó? - as lágrimas enchiam meus olhos.
- Não vamos matar sua vó. Demetrius irá matá-la. Demetrius é aquele com quem eu falava na outra noite, nesse mesmo hospital. Ele é meu amo, meu mestre. Ele precisa da energia do seu planeta para alimentá-lo. Aqueles que são fracos servirão de alimento e os fortes o bastante para sobreviver, servirão uma vida de escravidão, totalmente dedicada a ele, assim como eu.
- E porque você me conta tudo isso?
- Eu fui selecionado há muito para observar você, menino Charles. Seu dia a dia, suas manias, seus sonhos, sua rotina e descobrir seu ponto fraco. Eu me apeguei muito a você. Depois de um tempo eu percebi que você não tinha um ponto fraco, você nem ao menos sabe o que pode fazer. Se soubesse, Demetrius estaria lutando a invadir seu planeta, mas ele não sabe. Por isso ainda não veio pessoalmente lhe ver. Ele acredita que você já sabe e portanto não irá por os pés nesse planeta por um bom tempo. Nesse meio tempo, ele insiste que eu informe para ele, tudo que acontece por aqui. Uma hora ou outra, terei de informar-lhe do seu desconhecimento total do que está havendo. Não poderei segurá-lo por muito mais tempo. Você tem que aprender logo.
- Aprender?
- Sim. Olhe, não há mais tempo. Preciso ir agora. Boa sorte, menino Charles! - deu uma piscadela amigável e se foi.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

25 de Janeiro de 2013

Memória. Espaço reservado no seu cérebro ou computador/celular para armazenar dados. Sejam eles importantes ou não. E se você começasse a se perguntar como chegou em tal lugar? Sabe, como num sonho, por exemplo, você está no cinema e cinco segundos depois está na praia. Num sonho você não se pergunta o que houve, mas se isso acontecesse na sua vida real, você se perguntaria, não é?
O incidente no shopping foi o primeiro de muitos. Após ter visto minha linda Katherine ou Kath. Nunca passei tanta vergonha na minha vida inteira (e já vivi muito, uns 16, 17 anos). Eu estava com a turma toda no shopping e por cima dos meus ombros vi aquela linda menina descendo as escadas rolantes. Eu estava conversando com ela no momento seguinte. Mas não me lembro de ter começado a conversa com ela. Não lembro de ter subido as escadas com ela, de ter pago um refrigerante para ela. Sobre o que estávamos falando? Ela sorria e mexia nos cabelos, colocando-os para trás da orelha, que cena mais linda.
Abri os olhos depois de uma piscada, estava no chão no meio do shopping. Minhas calças estavam sujas de algo que é preferível não comentar. Eu estava babando e só conseguia ver apenas uma cena. Kath estava olhando para mim. Ela devia estar me odiando, mas não. Os olhos brilhavam em direção aos meus, com lágrimas e a boca contorcida de forma que demonstrava aflição. Ela gritava por socorro e segurava minha mão. Fechei meus olhos.
No dia seguinte eu levantei no hospital. Uma mulher estava sentada com o rosto escondido e por um momento pensei ser minha mãe, sempre tão preocupada, tão devotada. O rosto se levantou de um sono profundo de uma noite mal dormida. Os olhos cansados e a face pálida como uma folha de sulfite. Os olhos dela brilharam em uma alegria por ter me visto acordar bem e a boca agora sorria, mesmo que ainda parecendo preocupada. Não era minha mãe. Era Katherine.
"Charles? Você está bem? Fiquei tão preocupada com você, aquela cena... foi terrível sabe... não sabia o que fazer - havia um início de choro em sua voz, enquanto eu não conseguia responder de jeito nenhum-  eu fiquei aqui a noite toda."
Eu sorri calmamente e fiz um sinal de o.k com as mãos. Estava tudo mais do que o.k, estava tudo excelente. Tirando a parte de ter me cagado na frente do shopping todo, dos meus amigos e do amor da minha vida, estava tudo bem.
Fico me perguntando todos os dias se estou mesmo beirando a loucura ou se isso tem alguma coisa a ver com os seres estranhos. Não aguento mais pensar se eles são ou não reais. Mas hoje não vou pensar em nada disso, ficarei aqui, apenas conversando com a Kath. Ela voltou para me fazer companhia! Não é maravilhoso?

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

23 de Janeiro de 2013

Levantei não muito bem. Febre alta e tontura. Vomitando o dia todo, tudo que comi no dia anterior. Se quer mesmo saber sobre meu dia ontem (22/01) já vou lhe dizer, querido diário, que não foi bom. Foi péssimo.
Resolvi levantar cedo e combinar com o pessoal da minha sala de sair de casa antes de começarem as aulas e no mesmo dia fomos ao cinema. O combinado era ir andando até o shopping, mas chegando lá, Patrícia (uma menina gordinha de cabelo estilo chanel e olhos azuis, com língua presa e super tímida), estava cansada e não queria andar. sua asma estava atacada e ela não estava para andar. Todos resolveram então pagar um táxi, pois não seria muito legal pegar uma menina com asma e colocá-la num ônibus lotado em um dia quente.
Roberto, Diego e Alexandre, três de meus melhores amigos na escola, estavam conosco na ocasião, também estavam lá Patrícia, Mariana e Alexia. Chamamos o táxi e alguns minutos depois o mesmo chegou abrindo as portas e nos convidando a entrar. Não precisa ser Albert Einstein para saber que não havia espaço para todos na porcaria do táxi. Ninguém me ouviu, ninguém nunca me ouve, me sinto gritando no meio de uma multidão surda, minha voz não ecoa pelo ambiente, ou talvez, eu seja apenas ignorado.
Chamamos outro táxi que chegou uns vinte minutos depois, em um dos carros foram os meninos e no outro as meninas. Chegamos no shopping em exatos 15 minutos e 34 segundos.
O shopping não estava cheio, nem vazio, muito pelo contrário.
Estava um clima razoável e todos começamos a andar pelo shopping, vendo as lojas, conversando sobre nossas férias. Eles contavam o que fizeram e eu nem quis mencionar que fiquei em coma por causa que estava ficando louco. Acho que essas coisas não devem ser mencionados para pessoas que não sejam seus familiares. Tudo estava indo perfeitamente bem até eu olhar para cima dos ombros do Roberto e lá estava.
Descendo pela escada rolante a imagem da perfeição, vestida de vestido longo e florido, jogava seus cabelos ruivos para trás. Um sorriso hipnotizante e um olhar sedutor, olhava diretamente para mim. Para mim? Ela nunca me notou na escola. Estava se aproximando, aquela pele branca e aqueles lábios tão rosados podiam formar o sorriso perfeito, imagine beijá-los. Seu nome era Katherine. Katherine Lucchese Edeilstein.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

21 de Janeiro de 2013

Não sei se o que vou dizer aqui é normal. Sinto falta. Onde estão Ser Estranho e Ser da Sombra quando se precisam deles?
Ontem foi domingo e hoje é segunda. Ambos são dias que eu, pessoalmente, considero os dias mais insuportáveis da semana. Não me levem a mal, eu gosto de domingo e de segundo, mas não tanto quanto eu gosto de sexta, por exemplo. Geralmente passo meus domingos dormindo o dia todo e ontem não poderia ser diferente. Por ter dormido o dia todo eu não achei necessário escrever no diário. Imaginem só:
"Querido diário,
                           Hoje eu dormi. Até amanhã."
Porém, devo afirmar que não fiz nada muito interessante hoje. Essas férias estão me matando de tédio e cada dia mais eu penso " até que seria bom ter um ser estranho correndo atrás de mim e tentando me matar" pelo menos aí eu teria algo para fazer.
Minha segunda-feira-tediosa foi um tédio mortal do começo ao fim com um sermão da minha mãe. Entrei no quarto dela e vi que ela parecia muito cansada. Minha mãe é uma mulher muito linda, entendam, mas está ficando acabada, foi tomada pelo cansaço. Mamãe é alta e loira, com lindos olhos verdes ou quase isso. Mamãe, na verdade, é uma mulher baixinha, enfezada, não muito gorda, nem muito magro, mas por causa da altura ela parece ser gordinha. Seus cabelos são loiros escuros e seus olhos são verdes, bem verdes. Debaixo de seus olhos seguiam-se duas enormes olheiras pretas que podiam ser vistas numa distância de até cem metros. Sua voz era meio rouca e ela andava sempre mal vestida, ainda assim, eu olhava para ela e não havia mulher mais linda do que a minha mãe. Ela estava sentada na ponta da cama passando roupa e reclamando, como sempre, sobre o quanto ninguém a ajuda.
"Mãezinha querida do meu coração- entrei no quarto dizendo- a senhora precisa de uma ajuda?"
Os olhos dela brilharam por um momento e ela respondeu em um tom ríspido:
"O que você quer, Charles? Não tenho dinheiro, já falei pra você! Seu pai não está em condições de pagar nada no banco agora, ele ainda está pagando a conta do hospital e ..."
"Mãe! Para de falar e me diga o que eu deveria fazer mulher."
Foi uma bela segunda. Ajudei minha mãe o dia todo. Me distraí do meu "eu detetive" e pude passar o dia com a mulher mais incrível que já conheci. Minha adorável mãe.

sábado, 19 de janeiro de 2013

19 de Janeiro de 2013

Talvez não seja tão fácil bancar o detetive. Não tão fácil quanto pensei, quer dizer, assistimos esses programas de séries americanas sobre detetives que acham as menores pistas nos menores e mais inusitados lugares e sonhamos em ser como eles, usar a roupa deles, viver a aventura deles.
O primeiro passo na minha longa lista de investigação era conversar com minha querida vó. Mas por incrível que pareça ela resolveu tirar umas férias de surpresa, sem avisar ninguém claro.
Com minha falha tentativa em falar com minha vó (ela tinha celular, mas não sabia ligar ou fazer ligações), ela não atendeu o telefone e minha mão não soube informar onde ela estava.
Comecei então a procurar no Google por pessoas que tiveram sonhos parecidos com os meus ou que viram alguma coisa parecida com a minha. Nada. Os relatos que achei era de pessoas que realmente pareciam ter perdido a cabeça, porém um site me chamou a atenção. Um site de aparência negra intitulado "Sonhos Reais e Medos Irreais", o site tinha uma aparência totalmente sombria. Plano de fundo preto, com as letras em branco, um tipo de fonte totalmente tenebroso e o mouse virava uma pequena caveira e toda vez que eu clicava em algum link, a caveirinha abria a boca. Não parei de rir com essa caveira, mas não sei bem se essa era a intenção deles. Fazer rir, sabe?
Enfim, o site tinha o relato de várias pessoas que afirmavam ter sonhado com seres que, na descrição, pareciam-se muito com o meu Ser Estranho (meu Ser Estranho? Sério? Estou tão possessivo assim?) e não só a descrição física, mas também os diálogos. Era tudo tão parecido que era como se estivesse lendo meu próprio diário.
"Mariana Augustus345 comentou: Não gostei do sonho de ontem a noite galera! Acordei gritando e acordando o pessoal aqui! Geral levantou correndo em direção ao meu quarto. Ele estava lá parado e ninguém viu. Chorei a noite inteira, estou desesperada, meus pais acham que sou louca. Vão me internar na semana que está para vir. Hoje, será meu último comentário. Ajudem-me. Bjs."
"NorbertoEuropeu: Porra velho, me fodi essa semana. Estava no serviço quando aquele maluco esquisito apareceu pra mim. Gritei com ele e meu chefe me mandou embora na mesma hora!!!! Maluco desgraçado!"
"LillianAFlordeHP: Este é o nome de minha filha na internet. Grande fã de livros e com uma mente muito criativa. Alguns meses atrás ela começou a me contar que via seres conversando com ela. Achei que era sua imaginação fértil e infantil. Até o dia em que ela me disse que um deles ameaçou matá-la. Aquilo me assustou muito e portanto coloquei-a numa clínica psiquiatra. Dois anos se passaram e ela ainda afirmava vê-los frequentemente. Se passaram apenas duas semanas que minha filha faleceu. A minha opinião é de que ela foi brutalmente assassinada, pois não quiseram me mostrar o corpo. Entramos na justiça e o juiz me concedeu a permissão para vê-la. Foi horrível, ela foi morta, não faleceu. A causa continua indeterminada pela polícia, mas eu comecei a ler o diário dela. E se ela realmente visse todos aquelas pessoas que ela afirmava ver? E se todos vocês estiverem certos? Meu marido, acha que estou ficando louca, mas talvez não estejamos tão loucos assim. Eles estão aqui e levaram a minha filhinha linda. Minha flor de Lírios. Minha Lillian"
Não consegui ler mais nada, as lágrimas tampavam minha visão e eu só conseguia pensar na dor que aquela mãe sentia. Depois de um tempo só consegui pensar em quando chegaria minha vez de morrer. A vez da minha mãe de chorar.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

18 de Janeiro de 2013

Que dia insuportável eu diria. Mas quem sou eu para julgar um dia? E, para falar a verdade, esses meus últimos dias não foram exatamente comuns, a não ser que você ache perfeitamente normal escutar vozes na rua, desmaiar no meio da rua, ser atacado por sua vó, escutar vozes, ver um ser estranho na sua cozinha, entrar em coma, conversar com um ser estranho no hospital, ver um ser sombrio e depois sonhar que ele te corta em pedaços; não acho que exista alguém que ache isso normal. Caso esteja perguntando, o único meio que sobrevivi até agora foram por pílulas que me deixam sonolento quase que o tempo todo. Incrível não é mesmo? Se eu estivesse tendo aulas, mas como estou de férias, não é muito agradável.
Ontem tive um belo momento com minha vó. Sempre tão protetora. Comecei a me perguntar se tinha alguma coisa relacionada com o que o Ser Estranho disse quanto a minha protetora, ele disse que um anciã me protegia e que, portanto, eu não poderia ser tocado pelo Ser da Sombra. Outra coisa que me deixou muito curioso é o fato de que ao mesmo tempo que o Ser Estranho tentava me proteger, ele parecia ser obediente e leal para com o Ser da Sombra. Sei que provavelmente não deveria estar levando essa história a sério, talvez fosse mesmo apenas um fruto da minha imaginação, alguma doença cerebral ainda não identificada. Mas aquelas cenas não saíam da minha cabeça com tanta facilidade, não ficava claro para mim.
Não sei o que fazer, as dúvidas estão me matando, saber ou não se aquilo era real. E ao mesmo tempo que espero ser apenas uma doença, lá no fundo torço para que seja uma coisa real. Seria diferente, sair da rotina  ou algo parecido. Viver uma aventura.
Minhas dúvidas crescentes fizeram-me escrever não apenas no diário, mas agora em um outro pedaço de papel, eu anotava informações sobre a história. Até agora eu tinha as seguintes informações:

Julius ou o "Ser Estranho" - Vilão? Tenta me proteger? Qual é a dele? Disse que preciso me proteger e existe uma protetora na Terra para me ajudar.
Vovó - Seria ela a minha protetora? Quer dizer, ela conversou com eles no dia em que me amarrou. Falar com a vovó.
Ser da Sombra- Qual é a desse cara? Que me matar? Qual o motivo. NÃO FALAR COM ELE!

Escrever sempre me fez sentir melhor. Esclarecer a minha mente. E minha mente não anda muito clara, na verdade, nunca esteve tão escura.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

17 de Janeiro de 2013

Os remédios eram perfeitos. Eu tomava um de manhã e um ao anoitecer e me fazem dormir como um neném o dia todo. O lado ruim era perder o dia todo de minhas adoráveis férias, mas o lado bom é não ver mas nenhum ser estranho invadindo meu quarto. Como eu disse anteriormente, existe um ser estranho que anda me visitando com frequência. Mais frequência que meus próprios tios e tias, que só me visitam em datas comemorativas onde tinha comida gratuita e bebida a vontade.
Sonhei durante três dias com o Ser Estranho do hospital. O primeiro sonho começava no hospital mesmo, a conversa era a mesma, mas com um final completamente diferente. O Ser da Sombra saía das sombras e vinha em minha direção. Era um como o vento, silencioso e devastador. Apunhalava uma faca em meu peito que já respira com dificuldade. O segundo sonho, o Ser Estranho me segurava firmemente enquanto o Ser da Sombra arrancava cuidadosamente o meu coração, enquanto o sangue se esparramava pelo chão sem vida do hospital.
Como já era de se imaginar, eu acordava aos pulos com esses sonhos, porém o remédio já estava fazendo efeito. Dormia alguns minutos depois do susto. Dormi o dia inteiro, inteiro mesmo, só acordei quando uma senhora muito simpática veio me visitar. Uma senhora de cabelos grisalhos, sempre presos em coque, um rosto enrugado e seco mostravam seus anos de experiência e sabedoria; um sorriso fantástico que me dizia para relaxar e um corpo baixo e magro que estava coberto por um moletom azul, tanto a calça, como o casaco, eram azuis. Azuis bebe. Ela estava sempre de moletom e sempre me tranquilizava. Era a vovó.
A vovó era a única que se interessava por minha história, pelas minhas visões e era repreendida por isso.
"Mamãe! A senhora não pode ficar falando com o menino como se essas visões fossem de verdade! Elas não são e a senhora vai confundi-lo! Se continuar assim, vou impedir a senhora de vir aqui... Por favor "         - ela dizia isso com um rosto muito triste. Jamais iria expulsar a própria mãe de casa.
Do mesmo jeito que vovó ignorava os médicos que pediam para ela tomar os remédios, ela ignorou a filha dela e me perguntou sobre o Ser Estranho e o Ser da Sombra. Descrevi cada detalhe, tanto do que vi quanto dos sonhos que tive e a reação dela foi estranhamente calma, ela olhou para mim com aqueles olhos brilhosos e sorriu, colocando as mãos no ombro e dizendo:
"Vovó está aqui meu querido. Está aqui para te proteger, não importa do quê ou de quem, mas vou te proteger"
Aquilo me fez sentir uma calma interior que nunca tinha sentido antes. Uma lágrima escorreu e meus olhos se fecharam. Voltei a dormir. Voltei a sonhar.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

16 de Janeiro de 2013


Quando deu aproximadamente, duas da manhã, uma enfermeira veio verificar como eu estava e mais ou menos, umas três da manhã eu vi o ser de novo. Levantei da minha cama e pensei "se for apenas uma visão, ótimo, é apenas uma lembrança" então eu me aproximei daquilo. Toquei sua mão. Toquei sua mão. Não era para ter tocado, você não sente uma coisa que não está lá. Isso significava que ele estava lá. Estava lá.
Caí e me arrastei até a cama, tentando me levantar. Não tinha forças na perna e sentia um medo indescritível. O ser de olhos negros se aproximou de mim e me pegou no colo, não conseguia nem me debater. Colocou-que na cama e sussurrou ao pé do meu ouvido:
"Não deves temer garoto da Terra. Ainda não. Faça como os seus atores e finja. Finja que durma para salvar sua própria vida, mas em momento algum. Repito: Momento Algum. Tampe seus ouvidos ou feche seus olhos"
Não sei bem se foi meu medo ou se estava sendo sensato, mas escutei aquele ser estranho. Seria ele o estranho? Ou eu? Era mais estranho um ser entrar na sua sala do hospital e pedir para você fingir que dormia ou um menino que escutava vozes ver um ser estranho e obedecer o que ele me dizia?
Seja qual duas duas opções fosse a mais estranha, ambas aconteceram. Fechei meus olhos e continuei a observar. Do escuro do canto esquerdo da sala, uma voz surgiu. Uma voz meio rouca que ainda parecia fraca. Talvez se recuperando de algum acidente, seria outro paciente? A voz começou a dizer, em um tom também assustador(Mas dentro de um hospital o que não é assustador não é mesmo?):
"Seria esse o garoto mortal do qual me falaram? Será a alma dele que irá me curar? Diga Julius, preciso saber! Não esconda de mim mais nada ou você pagará caro."
"Sim, Meu Mestre. Esse garoto tem tudo o que o Senhor precisa para sobreviver. Porém, o garoto não pode ser tocado ainda."
"Quanto mais preciso esperar? Qual motivo de sua proteção?"
"O garoto tem na Terra uma protetora muita poderosa, uma anciã que há muito vaga por esse local abandonado e repugnante que chama de lar"
"Ache um meio de levar até esse inferno. Não me decepcione Julius!"
A voz desapareceu no ar, mas ainda permanecia o suspense. O ser se aproximou de minha cama, sentou na beirada e pediu para que eu tomasse cuidado. Que eu não estava só e que existia alguém que ali poderia me ajudar. Piscou e sorriu de forma estranha. Definitivamente, não tinha nascido ou sido feito para sorrir. Perguntas e mais perguntas ficavam flutuando pela minha mente e a que mais me martelava era aquela que eu acho que já sabia a resposta. Quem seria a protetora de quem ele tanto falava?
Na manhã que se sucedeu, contei tudo para minha adorável mãe. Que contou para o médico. Que contou para a enfermeira. Que todos juntos, pensavam que eram o remédio. Mas mamãe como sempre, pensava que Dr. Martin poderia ajudar.



Era de tarde quando adentrei o consultório do Dr. Martin. Era tarde quando saí. Nunca digo aqui, o que ele me diz lá. Entretanto devo admitir que nossas conversas estão ficando cada vez mais complexas. Não sei ao certo se alguém as consideraria assim, mas Martin disse que o que importa é o que eu penso, ele não se referia apenas a esse sentimento, mas também ao fato de eu estar pensando se era real ou não. Turbilhão de ideias. Ele sorriu e disse para não me preocupar com nada, que tudo estaria certo. Ele era um ser muito inteligente, e sim, é questionável a minha opinião para avaliar um ser inteligente, mas Dr Martin era o ser mais inteligente que já havia conhecido. Magro e de estatura média, cabelos castanhos escuros e uma barba meio loura. Olhos castanhos mel e óculos quadrados quase invisíveis. Olhava para mim sempre sorrindo. Me confortava e ao mesmo tempo me deixava nervoso. Mamãe entrou na sala dele e saiu com um frascos de remédio. Vai ficar tudo bem. Tudo bem.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

15 de Janeiro de 2013

O dia no hospital foi insuportavelmente chato. Não havia nada para se fazer a não ser assistir TV. Estava passando uma novela chata sobre um casal chato que era atacado por uma vilã maluca que queria ser o par romântico do cara chato, mas para isso ela precisou matar todo o elenco e manipular todo mundo com a cara de boazinha que ela tinha. Não sei como terminou, mas o fato de ser uma novela me dizia que o casal provavelmente estaria bem. Já a vilã nunca se sabe, depende muito da pessoa que escreveu a novela.
Quando chegou a hora do almoço,minha querida enfermeira, Enfermeira Natália se me lembro bem, me trouxe a comida mais sem sabor do mundo. Não tinha sal, nem na comida nem no meu dia.
Finalmente meus pais apareceram para me visitar. Mamãe, como sempre, segurava minha mão perguntando se estava tudo bem. O nome de minha adorada mãe era Helena e eu a chamava de mãe ou simplesmente de Dona Helena. Mamãe era apenas em meus pensamentos sabe? Não queria que ela pensasse que eu era infantil, mesmo que muitas vezes queria que minha infância nunca tivesse acabado. Meu pai, que estava do outro lado da cama, carregava em suas mãos uma grande quantidade de papéis. Papai era um homem muito trabalhador e raramente estava disponível para lidar com coisas superficiais do dia a dia. Para ele, coisas superficiais eram coisas como: assistir filmes, novelas, ouvir música, lavar o carro, fazer compras, viajar, sair para jantar com a mamãe, comer pizza com a família e cuidar da vovó; para que lavar o carro e cuidar da vovó se você consegue pagar alguém para fazer isso? Para que ir fazer compras coma mamãe ou jantar com ela, se ela tinha as amigas dela? E com esse pensamento mamãe e papai quase nunca tinham tempo juntos, mas não ligava muito para isso. Mas as vezes podia-se ouvir mamãe falar no telefone com a Chris (amiga dela) que ela sente falta dele. Falta dele.
Os dois ficaram ali, simplesmente parados, me observando. Não eram muito de falar. Não eram muito de se falar. Se eu parar para pensar, acho, apenas acho, que nunca os ouvi tendo uma conversa de verdade. Mas o silêncio deles era bem diferente do silêncio do hospital. Após algum tempo, Enfermeira Natália, quem meu pai achava uma bela enfermeira, os convidou para sair. Forçou ambos a saírem o mais rápido possível na verdade. E então eles partiram.
O hospital tem um silêncio que dá medo e para uma pessoa no meu estado o medo não estava sendo algo legal. Toda vez que fechava os olhos eu via aquele ser estranho me encarando, como se estivesse ali na frente da minha cama.
Quando deu aproximadamente, duas da manhã, uma enfermeira veio verificar como eu estava e mais ou menos, umas três da manhã eu vi o ser de novo. Levantei da minha cama e pensei "se for apenas uma visão, ótimo, é apenas uma lembrança" então eu me aproximei daquilo. Toquei sua mão. Toquei sua mão. Não era para ter tocado, você não sente uma coisa que não está lá. Isso significava que ele estava lá. Estava lá.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

14 de Janeiro de 2013

Gostaria de começar pedindo desculpas pelo meu desaparecimento total do diário, mas tenho uma desculpa que acho que será aceitável.
O dia 05 de Janeiro começou como outro qualquer, levantei tarde pois não estava no humor para levantar-me cedo. Enrolei na cama por mais duas horinhas até realmente me levantar. Comecei a assistir televisão e um filme de suspense que era de baixo orçamento, mas que realmente prendeu a minha atenção. Péssimos atores e a imagem também não era de se elogiar. Mas a trama era divina. Não lembro dela e vou explicar o porquê.
Com o final do filme veio o começo de minha fome, então levantei para pegar alguma coisa na geladeira e uma coceira no ouvido me incomodou enquanto tentava alcançar o queijo.
"Ainda não entendeu não é mesmo, Charles? Saia daí enquanto há tempo. Corra agora e não olhe para trás."
Minha primeira reação foi olhar para trás. Lágrimas escorreram pelos meus olhos até meu queixo e pensei que finalmente tinha ficado doido, a voz estava tão nítida em minha cabeça que era quase como se estivesse lá. Fechei a porta da geladeira pensando em correr para os braços de minha mãe. A porta se fechou. *pac* Um ser de não menos que 1,80 cm. de altura me encarava. Seu rosto pálido de cor amarela quase que branca, seus olhos grandes e azuis me encaravam dentro d'alma. Suas mãos eram compridas e enrugadas, suas unhas também eram enormes. Vestia um manto vermelho e dourado com uma capa azul. Olhou para mim e apontou dizendo com uma voz tremenda assustadora:
"Vá e não volte menino da Terra. Salve sua vida e a de seus semelhantes."
O suor desceu pela minha face fria e minhas mãos tremeram, tive tempo apenas de olhar para a porta e então corri, corri até não poder mais. 
Cheguei num lugar que não me era familiar na cidade, uma rua escura. Escura? Já era noite? Não me lembro bem, mas lembro dos passos que se aproximavam cada vez mais. Os gritos de dor que ecoavam pelos meus ouvidos agora sensíveis. Parei e tudo começou a girar. O ser estranho da minha cozinha estava pairando sobre minha visão. Apontava e parecia querer me alcançar, algo o impedia. 
Uma estranha visão, meio turva, me foi familiar. Uma senhora de jaqueta rosa estendia a mão e me abraça enquanto usava o celular na outra. Minha vó ao resgate. Sorri e entrei em coma por dez dias. Hoje cedo eu levantei e estou no hospital desde então. Esperando para saber se aquilo foi real ou apenas um fruto da minha fértil imaginação.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

04 de Janeiro de 2013

O dia amanheceu chuvoso mais uma vez, mas quando que não está chovendo?
Hoje não escutei as vozes que me perturbaram no dia anterior. Talvez fosse apenas um surto. Não sei, mas seja lá o que for, minha mãe fez questão de contar para minha vó. Não seria um problema, se minha vó fosse qualquer outra vó no mundo, mas não é.
Chegamos na casa da minha vó por volta das 16 horas. Sentamos e minha vó tinha feito chá com biscoitos e ofereceu para minha mãe. A conversa começa como qualquer outra:
"Diga, minha filha, como está o traste do homem que você chama de marido?"
Após muito se prolongar, minha mãe disse o que havia acontecido ontem e rapidamente minha vó me olhou com aqueles olhos, nunca vou esquecer aqueles olhos. Ela pediu para que minha mãe fosse comprar pão para que houvesse tempo sozinho comigo. Ela me chamou num canto e um pano branco veio em direção à minha boca.
Uma luz forte se acendeu enquanto eu abria os olhos e uma figura, ainda embaçada, se aproximava com certos aparelhos em mãos. A figura pálida começou a me cutucar e então sua voz, muito familiar, me disse:
" Eu sei muito bem que você não é meu netinho, agora me diga, quando planejam invadir? Vocês não podem vencer, nem mexer com minha família!"
Eu gritava com toda força, quase estourando meus pulmões:
"PELA AMOR DE DEUS VÓ!!! ME SOLTA!!! AGORA!!! QUE A SENHORA ESTÁ FAZENDO MULHER?!?"
Ela continuou uma longa conversa com quem ela acreditava ser um ser que havia me "possuído" e parecia que aquilo não teria fim. Apesar de muito estranho devo admitir que ela conversava com "eles", que era como ela se referia a mim quase que o tempo todo, de forma muito íntima, como se já se conhecessem faz tempo.
Não preciso nem dizer que quando minha mãe chegou, a reação dela não foi nem um pouco amigável. Ela começou a gritar com minha vó, me desamarrando e indo embora, batendo a porta e gritando como louca na rua, enquanto minha vó, ainda de avental, corria atrás dela gritando que "eles" vão me achar e que "eles" vão me matar.
Fora isso, meu dia foi normal. 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

03 de Janeiro de 2013

O dia amanheceu chuvoso e tempestuoso. Minhas mãos tremiam e o suor escorria pela minha pele oleosa. As pessoas paradas no meio da rua me encaravam de forma estranha e provavelmente se perguntavam o porquê de um menino estar jogado ao meio da rua, suando quando está frio.


Cheguei do hospital essa tarde. O psicólogo do hospital, Dr Martin, pediu para que eu colocasse em um diário tudo que acontecia no meu dia. 
Levantei às oito e às nove estava na rua, fui comprar pão e leite. Quatro pães e leite integral. O total foi de quatro reais e vinte e sete centavos. Andando pela rua meu ouvido começou a apitar e uma voz começou a sussurrar:
"Achamos você. Não pode se esconder agora Charles! Não corra ou você vai pagar!"
 Nesse momento tudo se apagou, minha mente fez o mundo ao meu redor girar e comecei a suar frio, minhas mãos tremiam como nunca haviam tremido antes. Ligaram então para minha mãe e imediatamente me encaminharam para o hospital mais próximo, Hospital São Joaquim, que ficava apenas duas quadras de distância. 
Chegando ao hospital me deram alguma droga que me fez desmaiar e tiraram chapas de todo meu corpo, quando não acharam nada demais dentro do meu corpo, mandaram-me para o psicólogo, diziam para minha mãe que poderia ser apenas um surto, que talvez eu apenas estivesse estressado.
"Charles, me diga filho, o que aconteceu com você essa manhã? Consegue se lembrar?"
Sim, eu conseguia me lembrar tão nitidamente, como se estivesse acontecendo naquele mesmo momento, podia escutar aquelas vozes como se estivessem na mesma sala que eu e o Dr Martin.
Após muita conversa e muitas palavras, ele finalmente me disse:
"Vamos continuar essa conversa semana que vem, pode ser? Enquanto isso, quero que escreva um diário, relatando o seu dia a dia, toda sua rotina, qualquer coisa que sentir, ou acontecer, deverá estar nesse diário, e depois, você irá me mostrar como ficou!"
Depois do hospital, minha mãe ficou me perguntando se estava estressado e se precisava de alguma coisa, de cinco em cinco minutos batia na porta:
"Precisa de alguma coisa querido? Qualquer coisa, mamãe está aqui embaixo"
Chegou então a hora de dormir, espero que o dia amanhã seja mais calmo do que o de hoje. Quer dizer, sem vozes nem nada. Belo jeito de começar o ano novo.