O fato de não falar com Diego me incomodava ainda mais depois da visita a Thomas. Eu queria poder falar com alguém, mas não existia ninguém com quem falar, eu estava, como sempre, sozinho. Não que eu estivesse querendo a amizade dele de volta, quer dizer, o que aquele idiota fez, não se faz com ninguém. Eu ainda estava com o olho esverdeado e amarelado e minha fama de lunático me perseguia. Toda vez que passava por um grupo de pessoas, eles começavam a cochichar. Podia ver Ana Carolina falando para o Joshua como eu "ainda estava na escola? Não deveria estar internado num hospício a essa hora?" e também tinham os comentários da Júlia Menezes com a Fernanda Olmenstein que podia jurar falou mais alto quando eu passei por elas e escutei que "ouvi dizer que ele estava namorando uma menina que não existia!" e Fernanda respondeu - "ah não! Ela existe, só não sabia que estava 'namorando' ele! Era uma relação de uma só pessoa: Charles e ele mesmo, Kath jamais namoraria um menino desses. Esquisito" - e as duas caíram na gargalhada.
- Oi
Aquela voz doce, eu reconheceria em qualquer lugar.
- Hã... Oi, Kath. Tudo bom?
- Sim! E você, Charles? Como você está? - perguntou colocando o cabelo por detrás da orelha.
- Estou. - e ri um pouco - Acho que estou bem, não estou num hospício ainda, então ... já é um começo.
- Ah! Quanto aquilo que houve com o Diego... bem... eu não tive tempo de vir falar com você sabe, ele estava me segurando o tempo todo. Eu juro que não sei o que houve com ele. Detestei aquela atitude infantil e desmerecedora de qualquer aplauso ou elogio que fosse! Briguei muito com ele e ele disse que não sabe o que aconteceu, que a boca dele abriu e saiu tudo aquilo... ele se arrepende muito, sabe.
- Não creio que aquele idiota esteja arrependido. - eu disse rispidamente - Acho que se ele estivesse arrependido ele teria falado comigo.Não concorda, Kath?
Ela deu sorrisinho meio sem jeito e continuou.
- Eu terminei com ele, sabe? Eu não podia continuar com alguém que humilhasse alguém como você na frente da escola toda.
Não sabia o que dizer. Porque ela estava me contando aquilo? Ela queria que eu tomasse uma atitude? Ou era simplesmente um aviso: Olha, gosto muito de você como amigo e por isso terminei com ele por ter sido um idiota com você. As meninas podem ser tão confusas e nos deixar tão confusos quanto elas. Acho que demorei tanto para responder que ela me deu um beijo na bochecha, disse no pé do meu ouvido "se cuida tá bem, charles? eu gosto muito de você" e foi embora. Mais sinais de que ela realmente gostava de mim ou apenas um sinal de amizade? De qualquer jeito, não existia nada que eu pudesse fazer agora, a sineta e tocou e eu rumei para a sala de Sociologia.
- Hoje trataremos de um tema extremamente importante para o nosso ano letivo e para a vida de vocês. Alguém aqui poderia me dizer o que é sociedade? O que forma uma sociedade? Quais os conceitos de sociedade?
- Eu saberia responder essa, se estivéssemos falando de uma sociedade não humana.
Eu me virei e lá estava, bem do meu lado. Julius estava sentado com as pernas cruzadas, bem do meu lado, ali, como se fosse a coisa mais normal do mundo ter um ser extraterrestre de aproximadamente 1,80cm, com agora uma cor meio verde, eu jurava que ele era meio amarelado na última vez que o vi, e seus grandes olhos me azuis encaravam com curiosidade e bondade. Suas mãos já não estavam mais enrugadas e suas unhas não eram tão compridas. Suas vestes estavam negras. Era um grande manto vermelho que cobria suas vestes pretas e brancas. Ele sorriu de leve e continuou.
- Você sabe o que é uma sociedade, Charles?
- Eu não vou falar com você. Você não é real, não existe, é fruto da minha imaginação.
- Será que sou?
- Sim. É sim.
- Então, diga, como seu avô me conhecia? Como ele sabe a história sobre Ogloom, Demetrius, energia pura se isso foi, apenas... como você disse... um fruto da sua fértil imaginação?
- Então, se vocês abrirem os livros na página noventa e sete verão que ... - ouvi a professora dizer depois do silêncio que se estendeu entre Julius e eu. Olhei em volta e como ninguém parecia notar sua presença ou o fato de eu estar falando com alguém que não estava ali, eu prossegui:
- Se você existe, porque só eu estou te vendo nesse momento?
- Porque é assim que quero, Charles. Essa gente não precisa me ver. Eles não sabem que, apesar de se acharem tão importantes, são um mero nada. Eles se julgam populares e humilham as pessoas que são consideradas estranhas, achando que de alguma forma são superiores. Os seres humanos não passam de uma formiga que é esmagada pelo sapato sem ser notada. Não passam de um vão no meio do universo e acham que são o centro de tudo. Seu povo age como animais selvagens, matando uns aos outros sem motivo algum ou pior, por motivos tão fúteis quanto não conseguir abrir uma lata de picles. Vocês são a raça mais desprezada pelos outros planetas. Não evoluíram nada, absolutamente nada, desde os primórdios da Terra. Vocês continuam a ser aqueles seres que andavam nus e não falavam, na verdade, se tornaram ainda pior. Eles não devem ter o privilégio de me ver.
- Se somos tão ruins assim, porque estão aqui?
- Você.
- Sou mesmo, a fonte de energia da qual meu vô, falou?
- Sim e não. Você não é apenas uma fonte de energia, Charles. Todos somos fontes de energia, de alguma forma, mas somos. Acontece que algumas pessoas nascem com o que chamamos de Energia Pura. Você não vai entender se eu lhe explicar agora, mas você é um Realizador. Está rodeado de energia pura e um dia irá entender como usá-la. Eu preciso que você aprenda isso logo, pois Demetrius quer voltar para cá. Ele despreza os seres humanos mais do que todos nós, mesmo assim, seu desejo de pisar na Terra é insaciável, pois aqui reside a única fonte de Energia Pura conhecida. Você.
Mais uma pausa, a professora agora andava pela sala a procura de espertinhos que não estivessem fazendo o que ela pediu. Abri meu livro rapidamente na página noventa e sete e comecei a copiar a lição, enquanto falava quase que em silêncio com Julius.
- Posso saber se... quer dizer... porque o senhor está me ajudando? O senhor não é servo dele? Não deveria estar ajudando-o a chegar até mim?
- É - Julius deu uma risada poderosa que deveria ter sido escutada a distância, mas ninguém ouviu - Deveria, mas ele me mandou aqui para lhe observar e relatar tudo sobre sua vida, entende? Você deveria continuar a ser um Realizador, não importa o que acontecesse, para que você pudesse manter a energia pura dentro de si. Acontece que você é um garoto excepcional e eu fiz a coisa que mais temia nessa vida, eu me apeguei a você. Você se tornou quase que como um filho para mim... eu... eu o protegi de tantos perigos, impedi tantos acidentes, tudo para que você continuasse vivo...
- Para que eu continuasse vivo até a hora de Demetrius me matar, não é?
- Infelizmente sim. Mas agora vejo que foi um erro, Demetrius está obcecado, não só por você, mas por todo esse planeta imundo. Planeta que se tornou meu lar por longos dezessete anos, Charles. Não posso deixá-lo destruí-lo, não posso deixar com que ele mate você. Por isso avisei sua vó, hoje cedo, para tirar você daqui. Ela vai te ensinar como usar a energia pura, como se proteger.
- Não... não sei o que dizer...
- Não diga nada, apenas faça seu dever. - e apontou para a professora.
Quando me virei, Julius não estava mais lá.
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