quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

16 de Fevereiro de 2013

Achei que iriam me enrolar por mais tempo. Foram apenas três dias até que minha mãe e minha avó decidiram me levar até o hospício onde meu avô estava internado. Não quiseram mencionar nem o nome do hospital e durante o caminho não falavam nada.
Pela janela eu podia ver os matos e galhos secos que corriam pela janela enquanto minha mãe acelerava o carro, sempre dando olhadas nervosas a minha vó no banco de carona, e podia ouvir o som do vento. Era tudo muito lindo e vazio, era um monte de nada que me mostrava tudo.
Depois de uns quarenta minutos dentro do carro, o que me pareceu bem menos enquanto observava toda aquela bela paisagem, chegamos em lugar que parecia tremendamente abandonado e assustador. Uma placa em cor vermelha, onde faltavam algumas letras, indicavam o seguinte:
"LAR DOS MEN ALMENTE I  ANOS PA A REABI   AÇÃO"
Entramos cuidadosamente pelo portão, o qual em juro que grunhiu para nós, e passamos por um vasto pedaço de algo que eu jurava, um dia, ter sido um belo jardim, que agora era ocupado pro velhas folhas secas que cobriam por inteiro o chão e levantam quando o vento batia, sacudindo também as arvores ao nosso redor. Alguns passos mais a frente chegamos numa porta, que era a única coisa que não parecia destruída no ambiente, que quando abria nos levava direto para a recepção. Haviam duas mulheres sentadas a mesa com fones de ouvidos que era conectados a um microfone que era ligado ao telefone. Uma delas era muito gorda, loira, com uma verruga gigante sob a sobrancelha, que tinha largos lábios que não paravam de mascar chiclete, e a outra era uma mulher jovem e muito linda, sua pele era morena da cor do chocolate e seu cabelo estava preso por um coque, com lindos olhos dor de mel e as duas pareciam ocupadas, mas a senhora que eu julgava feia foi a primeira a nos atender dizendo:
- Boa tarde! Lar dos Mentalmente Insanos para Reabilitação Santo Eduardo, como posso ajudar? - disse com uma voz que se estendia muito irritantemente.
- Estamos aqui para ver meu marido, Thomas Gargiulli. Meu nome é Gargiulli, Dolores.
- Ele está no quarto setenta e três, no sétimo andar, senhora Dolores.
- Muito obrigada, querida.
Pegamos o elevador velho e sujo que me dava mais medo do que uma maratona de filmes de terror num quarto escuro sozinho, todos em muito silêncio quando mamãe começou a falar:
- Sabe, Charles querido, nós queríamos que você soubesse que bem... han... - encarou a minha vó por alguns segundos e então tornou-se a olhar para mim - o seu avô não fala já faz algum tempo, sabe? Ele desenvolveu certos problemas de comunicação e talvez seja muito complicado de entender o que ele esteja falando. Não se assuste, o.k.?
Paramos na porta do setenta e três depois de passar por um longo corredor, de onde se escutavam berros, gritos de socorro e pessoas que pareciam exasperadas com os guardas do corredor. Dolores abriu a porta cuidadosamente e um médico muito alto se levantou da cadeira e disse que a visita seria feita sob observação, mas que teríamos toda a privacidade do mundo, sua boa seria um tumulo, confirmou o médico gentilmente.
Lá estava meu avô, um senhor com uma cara muito triste, mas que parecia que foi alguém muito jovem e belo no passado, mas que agora exalava cansaço e desapontamento. Ele era um homem alto, mas parecia muito baixo pois estava curvado, seus cabelos eram grisalhos e sua boca parecia muito seca. Seus olhos exibiam anos de sofrimento e abandono e sua orelhas eram extremamente grandes para sua cabeça não tão grande assim, tinha um queixo alongado e a pele cheia de rugas. Muito diferente da minha vó Dolores que tinha seus setenta anos, mas que quase não demonstrava rugas. Vovô estava mexendo seus braços para cima e para baixo, usando o indicador como um pincel a pintar a parede só que sem tinta.
- Thomas, querido - pigarreou a vovó - estamos aqui com uma visitinha a mais, é o seu neto, lembra dele? Charles está aqui, meu amor. Veio te ver.
Thomas se virou cuidadosamente e se aproximou de mim como um animal com medo de sair da sua toca. Nunca senti tanta pena de alguém na minha vida. Ali estava o homem que tentou me matar, quase se rastejando para tentar me alcançar, enquanto estava parado. Ele chegou bem perto e passou as mãos em meu rosto, o acariciando, que leve toque que ele tinha. Depois de um tempinho, ele se afastou e voltou para a parede. Em cima de sua mesa, havia um desenho que se repetia várias e várias vezes. Era um brasão, com  um dragão e guerreiro. Vovô olhava para o desenho e para a parede, como se estivesse tentando passar o desenho do papel para o desenho.
- Vovô - eu comecei a falar - o senhor poderia me falar sobre Demetrius?
Minha vó sorriu de um canto da boca, como se quisesse que eu fizesse essa pergunta desde o momento em que entramos na sala, algo totalmente diferente da reação da minha mãe, que me olhou boquiaberta e com um olhar de fúria que iria me matar assim que saíssemos do prédio. A reação de Thomas, no entanto, foi a que mais me surpreendeu. Ele olhou para mim, diretamente nos meus olhos e se ergueu. Sua coluna estava totalmente ereta e ele parecia ter voltado a razão, como se estivesse... estivesse... lúcido!
- Meu jovem, Charles. Eu não poderia lhe informar sobre Demetrius mais do que você já sabe. Nunca vi esse Demetrius, mas Julius O Mensageiro, me entregou sua mensagem. Ele disse que sua vó - disse apontando para Dolores, a voz de Thomas parecia jovial mais uma vez - seria sua guardiã e que o mestre dele viria lhe buscar quando completasse dezessete anos de idade, Charles. Demetrius vai voltar a Terra, ele vai sair de Ogloom e vai atacar quando você menos esperar, não caia em nenhum dos truques deles e confie em sua vó acima de tudo. Ela vai poder te ajudar e vai dar a vida dela por você. Precisamos que você deixe a cidade e vá para um treinamento para controle de energia, lá você vai encontrar um homem chamado Noberto e ele poderá te ajudar. Eu não posso fazer muito estando aqui, Charles, mas sei que você já é um homem agora, que pode se virar. Eu sinto muito por todo mal que já lhe causei, por tentar, sabe... tentar te... matar quando você tinha apenas um ano de idade. Pareceu-me sensato naquela hora, mas agora vejo que se você tivesse sido assassinado, todos estaríamos perdidos. O mundo precisa de você Charles, tanto quanto você precisa dele.
Ele deu alguns passos, sentou em uma cadeira e ficou me observando, como se nada tivesse acontecido. A porta se escancarou e o médico pediu para que saíssemos, ele teria de estudar o que acontece. Ele parecia tão lúcido e já voltara ao normal. Minha mãe colocou a mão sob meu ombro e fomos em direção ao corredor. Mais uma vez pegamos o elevador do terror e chegamos a saída do local.
Já no carro, vovó disse que conversaríamos quando chegássemos em casa, antes de minha mãe entrar no carro, ela deu uma piscadela e voltou a dirigir. A ida para casa nunca foi tão tranquila e cheia de perguntas.

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