terça-feira, 29 de janeiro de 2013

29 de Janeiro de 2013

Dia quatro de fevereiro terão início as aulas.
Este era o bilhete que estava pendurado no portão verde escuro, rabiscado e meio enferrujado da escola onde estudo. Dia quatro de fevereiro começarão minhas tão aguardadas aulas. O ano letivo vai começar e, depois de todos os ocorridos, minha mãe decidiu fazer uma viagem. Vou partir hoje, 29 de janeiro, e voltarei apenas no dia 04 de fevereiro.
Depois lhes conto da minha viagem. Prometi a minha mãe que eu não iria encostar no diário enquanto estiver lá. Nada de diário, celular ou computador. Então meu querido diário lindo, até mais ver.

domingo, 27 de janeiro de 2013

27 de Janeiro de 2013

O hospital se tornou uma segunda casa para mim, não tão confortável assim, mas o suficiente para me fazer dormir. Seus corredores já não eram mais tão assustadores assim e as enfermeiras já me conheciam mais do que meus vizinhos (que já devem me conhecer melhor que qualquer um, já que a fofoca rola solta pela minha  vizinhança) e os médicos já haviam simpatizado com minha carinha "doentemente" angelical.
Kath também se tornou uma presença quase que diária no meu quarto de hospital, o que tornava aquele meu ataque em algo positivo e a estadia no hospital muito mais agradável.
Contudo, minhas noites no hospital se tornavam cada vez mais horripilantes. Visitas constantes de Julius não me deixavam dormir nem por um segundo. Tremia toda vez que via sua sombra passa pelos corredores e temi o dia em que ele puxou uma cadeira para o lado da minha cama e puxou também assunto comigo.
- Como você está, menino Charles?
- Quem é você?
- Sou o Procurador, o Investigador, o Servo Fiel. Sou Julius O Perverso! - disse com uma voz que demonstrava bravura e orgulho.
- E veio procurar...?
- Você.
- Mas o que eu fiz? Você vai me matar? Quer dizer, não me matou antes, me auxiliou a me proteger. O que você veio investigar aqui?
- Você é um tipo de energia muito rara, menino Charles. O lugar onde vive, a Terra, é uma das fontes de energia mais fortes que há. Porém, ela é protegida pela sua energia, Charles e não será tocada enquanto você estiver vivo.
- Se é assim, posso saber o porquê de eu ainda estar respirando? - não sei como tive coragem de fazer aquela pergunta, tremia sem poder me controlar.
Ele soltou um risso frio e cínico e continuou - Ora, muito simples! Você é guardado pela sua protetora, a anciã que você tem costume de chamar de Vovó. Ela está há muitos anos aqui na Terra, esperando pelo seu nascimento, o nascimento do guardião. A vovó é nada mais, nada menos do que a mulher que dará a própria vida para salvar a sua vida, Charles. O conselho a selecionou antes do planeta ser habitado.
- Vocês vão matar a minha vó? - as lágrimas enchiam meus olhos.
- Não vamos matar sua vó. Demetrius irá matá-la. Demetrius é aquele com quem eu falava na outra noite, nesse mesmo hospital. Ele é meu amo, meu mestre. Ele precisa da energia do seu planeta para alimentá-lo. Aqueles que são fracos servirão de alimento e os fortes o bastante para sobreviver, servirão uma vida de escravidão, totalmente dedicada a ele, assim como eu.
- E porque você me conta tudo isso?
- Eu fui selecionado há muito para observar você, menino Charles. Seu dia a dia, suas manias, seus sonhos, sua rotina e descobrir seu ponto fraco. Eu me apeguei muito a você. Depois de um tempo eu percebi que você não tinha um ponto fraco, você nem ao menos sabe o que pode fazer. Se soubesse, Demetrius estaria lutando a invadir seu planeta, mas ele não sabe. Por isso ainda não veio pessoalmente lhe ver. Ele acredita que você já sabe e portanto não irá por os pés nesse planeta por um bom tempo. Nesse meio tempo, ele insiste que eu informe para ele, tudo que acontece por aqui. Uma hora ou outra, terei de informar-lhe do seu desconhecimento total do que está havendo. Não poderei segurá-lo por muito mais tempo. Você tem que aprender logo.
- Aprender?
- Sim. Olhe, não há mais tempo. Preciso ir agora. Boa sorte, menino Charles! - deu uma piscadela amigável e se foi.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

25 de Janeiro de 2013

Memória. Espaço reservado no seu cérebro ou computador/celular para armazenar dados. Sejam eles importantes ou não. E se você começasse a se perguntar como chegou em tal lugar? Sabe, como num sonho, por exemplo, você está no cinema e cinco segundos depois está na praia. Num sonho você não se pergunta o que houve, mas se isso acontecesse na sua vida real, você se perguntaria, não é?
O incidente no shopping foi o primeiro de muitos. Após ter visto minha linda Katherine ou Kath. Nunca passei tanta vergonha na minha vida inteira (e já vivi muito, uns 16, 17 anos). Eu estava com a turma toda no shopping e por cima dos meus ombros vi aquela linda menina descendo as escadas rolantes. Eu estava conversando com ela no momento seguinte. Mas não me lembro de ter começado a conversa com ela. Não lembro de ter subido as escadas com ela, de ter pago um refrigerante para ela. Sobre o que estávamos falando? Ela sorria e mexia nos cabelos, colocando-os para trás da orelha, que cena mais linda.
Abri os olhos depois de uma piscada, estava no chão no meio do shopping. Minhas calças estavam sujas de algo que é preferível não comentar. Eu estava babando e só conseguia ver apenas uma cena. Kath estava olhando para mim. Ela devia estar me odiando, mas não. Os olhos brilhavam em direção aos meus, com lágrimas e a boca contorcida de forma que demonstrava aflição. Ela gritava por socorro e segurava minha mão. Fechei meus olhos.
No dia seguinte eu levantei no hospital. Uma mulher estava sentada com o rosto escondido e por um momento pensei ser minha mãe, sempre tão preocupada, tão devotada. O rosto se levantou de um sono profundo de uma noite mal dormida. Os olhos cansados e a face pálida como uma folha de sulfite. Os olhos dela brilharam em uma alegria por ter me visto acordar bem e a boca agora sorria, mesmo que ainda parecendo preocupada. Não era minha mãe. Era Katherine.
"Charles? Você está bem? Fiquei tão preocupada com você, aquela cena... foi terrível sabe... não sabia o que fazer - havia um início de choro em sua voz, enquanto eu não conseguia responder de jeito nenhum-  eu fiquei aqui a noite toda."
Eu sorri calmamente e fiz um sinal de o.k com as mãos. Estava tudo mais do que o.k, estava tudo excelente. Tirando a parte de ter me cagado na frente do shopping todo, dos meus amigos e do amor da minha vida, estava tudo bem.
Fico me perguntando todos os dias se estou mesmo beirando a loucura ou se isso tem alguma coisa a ver com os seres estranhos. Não aguento mais pensar se eles são ou não reais. Mas hoje não vou pensar em nada disso, ficarei aqui, apenas conversando com a Kath. Ela voltou para me fazer companhia! Não é maravilhoso?

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

23 de Janeiro de 2013

Levantei não muito bem. Febre alta e tontura. Vomitando o dia todo, tudo que comi no dia anterior. Se quer mesmo saber sobre meu dia ontem (22/01) já vou lhe dizer, querido diário, que não foi bom. Foi péssimo.
Resolvi levantar cedo e combinar com o pessoal da minha sala de sair de casa antes de começarem as aulas e no mesmo dia fomos ao cinema. O combinado era ir andando até o shopping, mas chegando lá, Patrícia (uma menina gordinha de cabelo estilo chanel e olhos azuis, com língua presa e super tímida), estava cansada e não queria andar. sua asma estava atacada e ela não estava para andar. Todos resolveram então pagar um táxi, pois não seria muito legal pegar uma menina com asma e colocá-la num ônibus lotado em um dia quente.
Roberto, Diego e Alexandre, três de meus melhores amigos na escola, estavam conosco na ocasião, também estavam lá Patrícia, Mariana e Alexia. Chamamos o táxi e alguns minutos depois o mesmo chegou abrindo as portas e nos convidando a entrar. Não precisa ser Albert Einstein para saber que não havia espaço para todos na porcaria do táxi. Ninguém me ouviu, ninguém nunca me ouve, me sinto gritando no meio de uma multidão surda, minha voz não ecoa pelo ambiente, ou talvez, eu seja apenas ignorado.
Chamamos outro táxi que chegou uns vinte minutos depois, em um dos carros foram os meninos e no outro as meninas. Chegamos no shopping em exatos 15 minutos e 34 segundos.
O shopping não estava cheio, nem vazio, muito pelo contrário.
Estava um clima razoável e todos começamos a andar pelo shopping, vendo as lojas, conversando sobre nossas férias. Eles contavam o que fizeram e eu nem quis mencionar que fiquei em coma por causa que estava ficando louco. Acho que essas coisas não devem ser mencionados para pessoas que não sejam seus familiares. Tudo estava indo perfeitamente bem até eu olhar para cima dos ombros do Roberto e lá estava.
Descendo pela escada rolante a imagem da perfeição, vestida de vestido longo e florido, jogava seus cabelos ruivos para trás. Um sorriso hipnotizante e um olhar sedutor, olhava diretamente para mim. Para mim? Ela nunca me notou na escola. Estava se aproximando, aquela pele branca e aqueles lábios tão rosados podiam formar o sorriso perfeito, imagine beijá-los. Seu nome era Katherine. Katherine Lucchese Edeilstein.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

21 de Janeiro de 2013

Não sei se o que vou dizer aqui é normal. Sinto falta. Onde estão Ser Estranho e Ser da Sombra quando se precisam deles?
Ontem foi domingo e hoje é segunda. Ambos são dias que eu, pessoalmente, considero os dias mais insuportáveis da semana. Não me levem a mal, eu gosto de domingo e de segundo, mas não tanto quanto eu gosto de sexta, por exemplo. Geralmente passo meus domingos dormindo o dia todo e ontem não poderia ser diferente. Por ter dormido o dia todo eu não achei necessário escrever no diário. Imaginem só:
"Querido diário,
                           Hoje eu dormi. Até amanhã."
Porém, devo afirmar que não fiz nada muito interessante hoje. Essas férias estão me matando de tédio e cada dia mais eu penso " até que seria bom ter um ser estranho correndo atrás de mim e tentando me matar" pelo menos aí eu teria algo para fazer.
Minha segunda-feira-tediosa foi um tédio mortal do começo ao fim com um sermão da minha mãe. Entrei no quarto dela e vi que ela parecia muito cansada. Minha mãe é uma mulher muito linda, entendam, mas está ficando acabada, foi tomada pelo cansaço. Mamãe é alta e loira, com lindos olhos verdes ou quase isso. Mamãe, na verdade, é uma mulher baixinha, enfezada, não muito gorda, nem muito magro, mas por causa da altura ela parece ser gordinha. Seus cabelos são loiros escuros e seus olhos são verdes, bem verdes. Debaixo de seus olhos seguiam-se duas enormes olheiras pretas que podiam ser vistas numa distância de até cem metros. Sua voz era meio rouca e ela andava sempre mal vestida, ainda assim, eu olhava para ela e não havia mulher mais linda do que a minha mãe. Ela estava sentada na ponta da cama passando roupa e reclamando, como sempre, sobre o quanto ninguém a ajuda.
"Mãezinha querida do meu coração- entrei no quarto dizendo- a senhora precisa de uma ajuda?"
Os olhos dela brilharam por um momento e ela respondeu em um tom ríspido:
"O que você quer, Charles? Não tenho dinheiro, já falei pra você! Seu pai não está em condições de pagar nada no banco agora, ele ainda está pagando a conta do hospital e ..."
"Mãe! Para de falar e me diga o que eu deveria fazer mulher."
Foi uma bela segunda. Ajudei minha mãe o dia todo. Me distraí do meu "eu detetive" e pude passar o dia com a mulher mais incrível que já conheci. Minha adorável mãe.

sábado, 19 de janeiro de 2013

19 de Janeiro de 2013

Talvez não seja tão fácil bancar o detetive. Não tão fácil quanto pensei, quer dizer, assistimos esses programas de séries americanas sobre detetives que acham as menores pistas nos menores e mais inusitados lugares e sonhamos em ser como eles, usar a roupa deles, viver a aventura deles.
O primeiro passo na minha longa lista de investigação era conversar com minha querida vó. Mas por incrível que pareça ela resolveu tirar umas férias de surpresa, sem avisar ninguém claro.
Com minha falha tentativa em falar com minha vó (ela tinha celular, mas não sabia ligar ou fazer ligações), ela não atendeu o telefone e minha mão não soube informar onde ela estava.
Comecei então a procurar no Google por pessoas que tiveram sonhos parecidos com os meus ou que viram alguma coisa parecida com a minha. Nada. Os relatos que achei era de pessoas que realmente pareciam ter perdido a cabeça, porém um site me chamou a atenção. Um site de aparência negra intitulado "Sonhos Reais e Medos Irreais", o site tinha uma aparência totalmente sombria. Plano de fundo preto, com as letras em branco, um tipo de fonte totalmente tenebroso e o mouse virava uma pequena caveira e toda vez que eu clicava em algum link, a caveirinha abria a boca. Não parei de rir com essa caveira, mas não sei bem se essa era a intenção deles. Fazer rir, sabe?
Enfim, o site tinha o relato de várias pessoas que afirmavam ter sonhado com seres que, na descrição, pareciam-se muito com o meu Ser Estranho (meu Ser Estranho? Sério? Estou tão possessivo assim?) e não só a descrição física, mas também os diálogos. Era tudo tão parecido que era como se estivesse lendo meu próprio diário.
"Mariana Augustus345 comentou: Não gostei do sonho de ontem a noite galera! Acordei gritando e acordando o pessoal aqui! Geral levantou correndo em direção ao meu quarto. Ele estava lá parado e ninguém viu. Chorei a noite inteira, estou desesperada, meus pais acham que sou louca. Vão me internar na semana que está para vir. Hoje, será meu último comentário. Ajudem-me. Bjs."
"NorbertoEuropeu: Porra velho, me fodi essa semana. Estava no serviço quando aquele maluco esquisito apareceu pra mim. Gritei com ele e meu chefe me mandou embora na mesma hora!!!! Maluco desgraçado!"
"LillianAFlordeHP: Este é o nome de minha filha na internet. Grande fã de livros e com uma mente muito criativa. Alguns meses atrás ela começou a me contar que via seres conversando com ela. Achei que era sua imaginação fértil e infantil. Até o dia em que ela me disse que um deles ameaçou matá-la. Aquilo me assustou muito e portanto coloquei-a numa clínica psiquiatra. Dois anos se passaram e ela ainda afirmava vê-los frequentemente. Se passaram apenas duas semanas que minha filha faleceu. A minha opinião é de que ela foi brutalmente assassinada, pois não quiseram me mostrar o corpo. Entramos na justiça e o juiz me concedeu a permissão para vê-la. Foi horrível, ela foi morta, não faleceu. A causa continua indeterminada pela polícia, mas eu comecei a ler o diário dela. E se ela realmente visse todos aquelas pessoas que ela afirmava ver? E se todos vocês estiverem certos? Meu marido, acha que estou ficando louca, mas talvez não estejamos tão loucos assim. Eles estão aqui e levaram a minha filhinha linda. Minha flor de Lírios. Minha Lillian"
Não consegui ler mais nada, as lágrimas tampavam minha visão e eu só conseguia pensar na dor que aquela mãe sentia. Depois de um tempo só consegui pensar em quando chegaria minha vez de morrer. A vez da minha mãe de chorar.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

18 de Janeiro de 2013

Que dia insuportável eu diria. Mas quem sou eu para julgar um dia? E, para falar a verdade, esses meus últimos dias não foram exatamente comuns, a não ser que você ache perfeitamente normal escutar vozes na rua, desmaiar no meio da rua, ser atacado por sua vó, escutar vozes, ver um ser estranho na sua cozinha, entrar em coma, conversar com um ser estranho no hospital, ver um ser sombrio e depois sonhar que ele te corta em pedaços; não acho que exista alguém que ache isso normal. Caso esteja perguntando, o único meio que sobrevivi até agora foram por pílulas que me deixam sonolento quase que o tempo todo. Incrível não é mesmo? Se eu estivesse tendo aulas, mas como estou de férias, não é muito agradável.
Ontem tive um belo momento com minha vó. Sempre tão protetora. Comecei a me perguntar se tinha alguma coisa relacionada com o que o Ser Estranho disse quanto a minha protetora, ele disse que um anciã me protegia e que, portanto, eu não poderia ser tocado pelo Ser da Sombra. Outra coisa que me deixou muito curioso é o fato de que ao mesmo tempo que o Ser Estranho tentava me proteger, ele parecia ser obediente e leal para com o Ser da Sombra. Sei que provavelmente não deveria estar levando essa história a sério, talvez fosse mesmo apenas um fruto da minha imaginação, alguma doença cerebral ainda não identificada. Mas aquelas cenas não saíam da minha cabeça com tanta facilidade, não ficava claro para mim.
Não sei o que fazer, as dúvidas estão me matando, saber ou não se aquilo era real. E ao mesmo tempo que espero ser apenas uma doença, lá no fundo torço para que seja uma coisa real. Seria diferente, sair da rotina  ou algo parecido. Viver uma aventura.
Minhas dúvidas crescentes fizeram-me escrever não apenas no diário, mas agora em um outro pedaço de papel, eu anotava informações sobre a história. Até agora eu tinha as seguintes informações:

Julius ou o "Ser Estranho" - Vilão? Tenta me proteger? Qual é a dele? Disse que preciso me proteger e existe uma protetora na Terra para me ajudar.
Vovó - Seria ela a minha protetora? Quer dizer, ela conversou com eles no dia em que me amarrou. Falar com a vovó.
Ser da Sombra- Qual é a desse cara? Que me matar? Qual o motivo. NÃO FALAR COM ELE!

Escrever sempre me fez sentir melhor. Esclarecer a minha mente. E minha mente não anda muito clara, na verdade, nunca esteve tão escura.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

17 de Janeiro de 2013

Os remédios eram perfeitos. Eu tomava um de manhã e um ao anoitecer e me fazem dormir como um neném o dia todo. O lado ruim era perder o dia todo de minhas adoráveis férias, mas o lado bom é não ver mas nenhum ser estranho invadindo meu quarto. Como eu disse anteriormente, existe um ser estranho que anda me visitando com frequência. Mais frequência que meus próprios tios e tias, que só me visitam em datas comemorativas onde tinha comida gratuita e bebida a vontade.
Sonhei durante três dias com o Ser Estranho do hospital. O primeiro sonho começava no hospital mesmo, a conversa era a mesma, mas com um final completamente diferente. O Ser da Sombra saía das sombras e vinha em minha direção. Era um como o vento, silencioso e devastador. Apunhalava uma faca em meu peito que já respira com dificuldade. O segundo sonho, o Ser Estranho me segurava firmemente enquanto o Ser da Sombra arrancava cuidadosamente o meu coração, enquanto o sangue se esparramava pelo chão sem vida do hospital.
Como já era de se imaginar, eu acordava aos pulos com esses sonhos, porém o remédio já estava fazendo efeito. Dormia alguns minutos depois do susto. Dormi o dia inteiro, inteiro mesmo, só acordei quando uma senhora muito simpática veio me visitar. Uma senhora de cabelos grisalhos, sempre presos em coque, um rosto enrugado e seco mostravam seus anos de experiência e sabedoria; um sorriso fantástico que me dizia para relaxar e um corpo baixo e magro que estava coberto por um moletom azul, tanto a calça, como o casaco, eram azuis. Azuis bebe. Ela estava sempre de moletom e sempre me tranquilizava. Era a vovó.
A vovó era a única que se interessava por minha história, pelas minhas visões e era repreendida por isso.
"Mamãe! A senhora não pode ficar falando com o menino como se essas visões fossem de verdade! Elas não são e a senhora vai confundi-lo! Se continuar assim, vou impedir a senhora de vir aqui... Por favor "         - ela dizia isso com um rosto muito triste. Jamais iria expulsar a própria mãe de casa.
Do mesmo jeito que vovó ignorava os médicos que pediam para ela tomar os remédios, ela ignorou a filha dela e me perguntou sobre o Ser Estranho e o Ser da Sombra. Descrevi cada detalhe, tanto do que vi quanto dos sonhos que tive e a reação dela foi estranhamente calma, ela olhou para mim com aqueles olhos brilhosos e sorriu, colocando as mãos no ombro e dizendo:
"Vovó está aqui meu querido. Está aqui para te proteger, não importa do quê ou de quem, mas vou te proteger"
Aquilo me fez sentir uma calma interior que nunca tinha sentido antes. Uma lágrima escorreu e meus olhos se fecharam. Voltei a dormir. Voltei a sonhar.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

16 de Janeiro de 2013


Quando deu aproximadamente, duas da manhã, uma enfermeira veio verificar como eu estava e mais ou menos, umas três da manhã eu vi o ser de novo. Levantei da minha cama e pensei "se for apenas uma visão, ótimo, é apenas uma lembrança" então eu me aproximei daquilo. Toquei sua mão. Toquei sua mão. Não era para ter tocado, você não sente uma coisa que não está lá. Isso significava que ele estava lá. Estava lá.
Caí e me arrastei até a cama, tentando me levantar. Não tinha forças na perna e sentia um medo indescritível. O ser de olhos negros se aproximou de mim e me pegou no colo, não conseguia nem me debater. Colocou-que na cama e sussurrou ao pé do meu ouvido:
"Não deves temer garoto da Terra. Ainda não. Faça como os seus atores e finja. Finja que durma para salvar sua própria vida, mas em momento algum. Repito: Momento Algum. Tampe seus ouvidos ou feche seus olhos"
Não sei bem se foi meu medo ou se estava sendo sensato, mas escutei aquele ser estranho. Seria ele o estranho? Ou eu? Era mais estranho um ser entrar na sua sala do hospital e pedir para você fingir que dormia ou um menino que escutava vozes ver um ser estranho e obedecer o que ele me dizia?
Seja qual duas duas opções fosse a mais estranha, ambas aconteceram. Fechei meus olhos e continuei a observar. Do escuro do canto esquerdo da sala, uma voz surgiu. Uma voz meio rouca que ainda parecia fraca. Talvez se recuperando de algum acidente, seria outro paciente? A voz começou a dizer, em um tom também assustador(Mas dentro de um hospital o que não é assustador não é mesmo?):
"Seria esse o garoto mortal do qual me falaram? Será a alma dele que irá me curar? Diga Julius, preciso saber! Não esconda de mim mais nada ou você pagará caro."
"Sim, Meu Mestre. Esse garoto tem tudo o que o Senhor precisa para sobreviver. Porém, o garoto não pode ser tocado ainda."
"Quanto mais preciso esperar? Qual motivo de sua proteção?"
"O garoto tem na Terra uma protetora muita poderosa, uma anciã que há muito vaga por esse local abandonado e repugnante que chama de lar"
"Ache um meio de levar até esse inferno. Não me decepcione Julius!"
A voz desapareceu no ar, mas ainda permanecia o suspense. O ser se aproximou de minha cama, sentou na beirada e pediu para que eu tomasse cuidado. Que eu não estava só e que existia alguém que ali poderia me ajudar. Piscou e sorriu de forma estranha. Definitivamente, não tinha nascido ou sido feito para sorrir. Perguntas e mais perguntas ficavam flutuando pela minha mente e a que mais me martelava era aquela que eu acho que já sabia a resposta. Quem seria a protetora de quem ele tanto falava?
Na manhã que se sucedeu, contei tudo para minha adorável mãe. Que contou para o médico. Que contou para a enfermeira. Que todos juntos, pensavam que eram o remédio. Mas mamãe como sempre, pensava que Dr. Martin poderia ajudar.



Era de tarde quando adentrei o consultório do Dr. Martin. Era tarde quando saí. Nunca digo aqui, o que ele me diz lá. Entretanto devo admitir que nossas conversas estão ficando cada vez mais complexas. Não sei ao certo se alguém as consideraria assim, mas Martin disse que o que importa é o que eu penso, ele não se referia apenas a esse sentimento, mas também ao fato de eu estar pensando se era real ou não. Turbilhão de ideias. Ele sorriu e disse para não me preocupar com nada, que tudo estaria certo. Ele era um ser muito inteligente, e sim, é questionável a minha opinião para avaliar um ser inteligente, mas Dr Martin era o ser mais inteligente que já havia conhecido. Magro e de estatura média, cabelos castanhos escuros e uma barba meio loura. Olhos castanhos mel e óculos quadrados quase invisíveis. Olhava para mim sempre sorrindo. Me confortava e ao mesmo tempo me deixava nervoso. Mamãe entrou na sala dele e saiu com um frascos de remédio. Vai ficar tudo bem. Tudo bem.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

15 de Janeiro de 2013

O dia no hospital foi insuportavelmente chato. Não havia nada para se fazer a não ser assistir TV. Estava passando uma novela chata sobre um casal chato que era atacado por uma vilã maluca que queria ser o par romântico do cara chato, mas para isso ela precisou matar todo o elenco e manipular todo mundo com a cara de boazinha que ela tinha. Não sei como terminou, mas o fato de ser uma novela me dizia que o casal provavelmente estaria bem. Já a vilã nunca se sabe, depende muito da pessoa que escreveu a novela.
Quando chegou a hora do almoço,minha querida enfermeira, Enfermeira Natália se me lembro bem, me trouxe a comida mais sem sabor do mundo. Não tinha sal, nem na comida nem no meu dia.
Finalmente meus pais apareceram para me visitar. Mamãe, como sempre, segurava minha mão perguntando se estava tudo bem. O nome de minha adorada mãe era Helena e eu a chamava de mãe ou simplesmente de Dona Helena. Mamãe era apenas em meus pensamentos sabe? Não queria que ela pensasse que eu era infantil, mesmo que muitas vezes queria que minha infância nunca tivesse acabado. Meu pai, que estava do outro lado da cama, carregava em suas mãos uma grande quantidade de papéis. Papai era um homem muito trabalhador e raramente estava disponível para lidar com coisas superficiais do dia a dia. Para ele, coisas superficiais eram coisas como: assistir filmes, novelas, ouvir música, lavar o carro, fazer compras, viajar, sair para jantar com a mamãe, comer pizza com a família e cuidar da vovó; para que lavar o carro e cuidar da vovó se você consegue pagar alguém para fazer isso? Para que ir fazer compras coma mamãe ou jantar com ela, se ela tinha as amigas dela? E com esse pensamento mamãe e papai quase nunca tinham tempo juntos, mas não ligava muito para isso. Mas as vezes podia-se ouvir mamãe falar no telefone com a Chris (amiga dela) que ela sente falta dele. Falta dele.
Os dois ficaram ali, simplesmente parados, me observando. Não eram muito de falar. Não eram muito de se falar. Se eu parar para pensar, acho, apenas acho, que nunca os ouvi tendo uma conversa de verdade. Mas o silêncio deles era bem diferente do silêncio do hospital. Após algum tempo, Enfermeira Natália, quem meu pai achava uma bela enfermeira, os convidou para sair. Forçou ambos a saírem o mais rápido possível na verdade. E então eles partiram.
O hospital tem um silêncio que dá medo e para uma pessoa no meu estado o medo não estava sendo algo legal. Toda vez que fechava os olhos eu via aquele ser estranho me encarando, como se estivesse ali na frente da minha cama.
Quando deu aproximadamente, duas da manhã, uma enfermeira veio verificar como eu estava e mais ou menos, umas três da manhã eu vi o ser de novo. Levantei da minha cama e pensei "se for apenas uma visão, ótimo, é apenas uma lembrança" então eu me aproximei daquilo. Toquei sua mão. Toquei sua mão. Não era para ter tocado, você não sente uma coisa que não está lá. Isso significava que ele estava lá. Estava lá.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

14 de Janeiro de 2013

Gostaria de começar pedindo desculpas pelo meu desaparecimento total do diário, mas tenho uma desculpa que acho que será aceitável.
O dia 05 de Janeiro começou como outro qualquer, levantei tarde pois não estava no humor para levantar-me cedo. Enrolei na cama por mais duas horinhas até realmente me levantar. Comecei a assistir televisão e um filme de suspense que era de baixo orçamento, mas que realmente prendeu a minha atenção. Péssimos atores e a imagem também não era de se elogiar. Mas a trama era divina. Não lembro dela e vou explicar o porquê.
Com o final do filme veio o começo de minha fome, então levantei para pegar alguma coisa na geladeira e uma coceira no ouvido me incomodou enquanto tentava alcançar o queijo.
"Ainda não entendeu não é mesmo, Charles? Saia daí enquanto há tempo. Corra agora e não olhe para trás."
Minha primeira reação foi olhar para trás. Lágrimas escorreram pelos meus olhos até meu queixo e pensei que finalmente tinha ficado doido, a voz estava tão nítida em minha cabeça que era quase como se estivesse lá. Fechei a porta da geladeira pensando em correr para os braços de minha mãe. A porta se fechou. *pac* Um ser de não menos que 1,80 cm. de altura me encarava. Seu rosto pálido de cor amarela quase que branca, seus olhos grandes e azuis me encaravam dentro d'alma. Suas mãos eram compridas e enrugadas, suas unhas também eram enormes. Vestia um manto vermelho e dourado com uma capa azul. Olhou para mim e apontou dizendo com uma voz tremenda assustadora:
"Vá e não volte menino da Terra. Salve sua vida e a de seus semelhantes."
O suor desceu pela minha face fria e minhas mãos tremeram, tive tempo apenas de olhar para a porta e então corri, corri até não poder mais. 
Cheguei num lugar que não me era familiar na cidade, uma rua escura. Escura? Já era noite? Não me lembro bem, mas lembro dos passos que se aproximavam cada vez mais. Os gritos de dor que ecoavam pelos meus ouvidos agora sensíveis. Parei e tudo começou a girar. O ser estranho da minha cozinha estava pairando sobre minha visão. Apontava e parecia querer me alcançar, algo o impedia. 
Uma estranha visão, meio turva, me foi familiar. Uma senhora de jaqueta rosa estendia a mão e me abraça enquanto usava o celular na outra. Minha vó ao resgate. Sorri e entrei em coma por dez dias. Hoje cedo eu levantei e estou no hospital desde então. Esperando para saber se aquilo foi real ou apenas um fruto da minha fértil imaginação.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

04 de Janeiro de 2013

O dia amanheceu chuvoso mais uma vez, mas quando que não está chovendo?
Hoje não escutei as vozes que me perturbaram no dia anterior. Talvez fosse apenas um surto. Não sei, mas seja lá o que for, minha mãe fez questão de contar para minha vó. Não seria um problema, se minha vó fosse qualquer outra vó no mundo, mas não é.
Chegamos na casa da minha vó por volta das 16 horas. Sentamos e minha vó tinha feito chá com biscoitos e ofereceu para minha mãe. A conversa começa como qualquer outra:
"Diga, minha filha, como está o traste do homem que você chama de marido?"
Após muito se prolongar, minha mãe disse o que havia acontecido ontem e rapidamente minha vó me olhou com aqueles olhos, nunca vou esquecer aqueles olhos. Ela pediu para que minha mãe fosse comprar pão para que houvesse tempo sozinho comigo. Ela me chamou num canto e um pano branco veio em direção à minha boca.
Uma luz forte se acendeu enquanto eu abria os olhos e uma figura, ainda embaçada, se aproximava com certos aparelhos em mãos. A figura pálida começou a me cutucar e então sua voz, muito familiar, me disse:
" Eu sei muito bem que você não é meu netinho, agora me diga, quando planejam invadir? Vocês não podem vencer, nem mexer com minha família!"
Eu gritava com toda força, quase estourando meus pulmões:
"PELA AMOR DE DEUS VÓ!!! ME SOLTA!!! AGORA!!! QUE A SENHORA ESTÁ FAZENDO MULHER?!?"
Ela continuou uma longa conversa com quem ela acreditava ser um ser que havia me "possuído" e parecia que aquilo não teria fim. Apesar de muito estranho devo admitir que ela conversava com "eles", que era como ela se referia a mim quase que o tempo todo, de forma muito íntima, como se já se conhecessem faz tempo.
Não preciso nem dizer que quando minha mãe chegou, a reação dela não foi nem um pouco amigável. Ela começou a gritar com minha vó, me desamarrando e indo embora, batendo a porta e gritando como louca na rua, enquanto minha vó, ainda de avental, corria atrás dela gritando que "eles" vão me achar e que "eles" vão me matar.
Fora isso, meu dia foi normal. 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

03 de Janeiro de 2013

O dia amanheceu chuvoso e tempestuoso. Minhas mãos tremiam e o suor escorria pela minha pele oleosa. As pessoas paradas no meio da rua me encaravam de forma estranha e provavelmente se perguntavam o porquê de um menino estar jogado ao meio da rua, suando quando está frio.


Cheguei do hospital essa tarde. O psicólogo do hospital, Dr Martin, pediu para que eu colocasse em um diário tudo que acontecia no meu dia. 
Levantei às oito e às nove estava na rua, fui comprar pão e leite. Quatro pães e leite integral. O total foi de quatro reais e vinte e sete centavos. Andando pela rua meu ouvido começou a apitar e uma voz começou a sussurrar:
"Achamos você. Não pode se esconder agora Charles! Não corra ou você vai pagar!"
 Nesse momento tudo se apagou, minha mente fez o mundo ao meu redor girar e comecei a suar frio, minhas mãos tremiam como nunca haviam tremido antes. Ligaram então para minha mãe e imediatamente me encaminharam para o hospital mais próximo, Hospital São Joaquim, que ficava apenas duas quadras de distância. 
Chegando ao hospital me deram alguma droga que me fez desmaiar e tiraram chapas de todo meu corpo, quando não acharam nada demais dentro do meu corpo, mandaram-me para o psicólogo, diziam para minha mãe que poderia ser apenas um surto, que talvez eu apenas estivesse estressado.
"Charles, me diga filho, o que aconteceu com você essa manhã? Consegue se lembrar?"
Sim, eu conseguia me lembrar tão nitidamente, como se estivesse acontecendo naquele mesmo momento, podia escutar aquelas vozes como se estivessem na mesma sala que eu e o Dr Martin.
Após muita conversa e muitas palavras, ele finalmente me disse:
"Vamos continuar essa conversa semana que vem, pode ser? Enquanto isso, quero que escreva um diário, relatando o seu dia a dia, toda sua rotina, qualquer coisa que sentir, ou acontecer, deverá estar nesse diário, e depois, você irá me mostrar como ficou!"
Depois do hospital, minha mãe ficou me perguntando se estava estressado e se precisava de alguma coisa, de cinco em cinco minutos batia na porta:
"Precisa de alguma coisa querido? Qualquer coisa, mamãe está aqui embaixo"
Chegou então a hora de dormir, espero que o dia amanhã seja mais calmo do que o de hoje. Quer dizer, sem vozes nem nada. Belo jeito de começar o ano novo.