quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

17 de Janeiro de 2013

Os remédios eram perfeitos. Eu tomava um de manhã e um ao anoitecer e me fazem dormir como um neném o dia todo. O lado ruim era perder o dia todo de minhas adoráveis férias, mas o lado bom é não ver mas nenhum ser estranho invadindo meu quarto. Como eu disse anteriormente, existe um ser estranho que anda me visitando com frequência. Mais frequência que meus próprios tios e tias, que só me visitam em datas comemorativas onde tinha comida gratuita e bebida a vontade.
Sonhei durante três dias com o Ser Estranho do hospital. O primeiro sonho começava no hospital mesmo, a conversa era a mesma, mas com um final completamente diferente. O Ser da Sombra saía das sombras e vinha em minha direção. Era um como o vento, silencioso e devastador. Apunhalava uma faca em meu peito que já respira com dificuldade. O segundo sonho, o Ser Estranho me segurava firmemente enquanto o Ser da Sombra arrancava cuidadosamente o meu coração, enquanto o sangue se esparramava pelo chão sem vida do hospital.
Como já era de se imaginar, eu acordava aos pulos com esses sonhos, porém o remédio já estava fazendo efeito. Dormia alguns minutos depois do susto. Dormi o dia inteiro, inteiro mesmo, só acordei quando uma senhora muito simpática veio me visitar. Uma senhora de cabelos grisalhos, sempre presos em coque, um rosto enrugado e seco mostravam seus anos de experiência e sabedoria; um sorriso fantástico que me dizia para relaxar e um corpo baixo e magro que estava coberto por um moletom azul, tanto a calça, como o casaco, eram azuis. Azuis bebe. Ela estava sempre de moletom e sempre me tranquilizava. Era a vovó.
A vovó era a única que se interessava por minha história, pelas minhas visões e era repreendida por isso.
"Mamãe! A senhora não pode ficar falando com o menino como se essas visões fossem de verdade! Elas não são e a senhora vai confundi-lo! Se continuar assim, vou impedir a senhora de vir aqui... Por favor "         - ela dizia isso com um rosto muito triste. Jamais iria expulsar a própria mãe de casa.
Do mesmo jeito que vovó ignorava os médicos que pediam para ela tomar os remédios, ela ignorou a filha dela e me perguntou sobre o Ser Estranho e o Ser da Sombra. Descrevi cada detalhe, tanto do que vi quanto dos sonhos que tive e a reação dela foi estranhamente calma, ela olhou para mim com aqueles olhos brilhosos e sorriu, colocando as mãos no ombro e dizendo:
"Vovó está aqui meu querido. Está aqui para te proteger, não importa do quê ou de quem, mas vou te proteger"
Aquilo me fez sentir uma calma interior que nunca tinha sentido antes. Uma lágrima escorreu e meus olhos se fecharam. Voltei a dormir. Voltei a sonhar.

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