O dia no hospital foi insuportavelmente chato. Não havia nada para se fazer a não ser assistir TV. Estava passando uma novela chata sobre um casal chato que era atacado por uma vilã maluca que queria ser o par romântico do cara chato, mas para isso ela precisou matar todo o elenco e manipular todo mundo com a cara de boazinha que ela tinha. Não sei como terminou, mas o fato de ser uma novela me dizia que o casal provavelmente estaria bem. Já a vilã nunca se sabe, depende muito da pessoa que escreveu a novela.
Quando chegou a hora do almoço,minha querida enfermeira, Enfermeira Natália se me lembro bem, me trouxe a comida mais sem sabor do mundo. Não tinha sal, nem na comida nem no meu dia.
Finalmente meus pais apareceram para me visitar. Mamãe, como sempre, segurava minha mão perguntando se estava tudo bem. O nome de minha adorada mãe era Helena e eu a chamava de mãe ou simplesmente de Dona Helena. Mamãe era apenas em meus pensamentos sabe? Não queria que ela pensasse que eu era infantil, mesmo que muitas vezes queria que minha infância nunca tivesse acabado. Meu pai, que estava do outro lado da cama, carregava em suas mãos uma grande quantidade de papéis. Papai era um homem muito trabalhador e raramente estava disponível para lidar com coisas superficiais do dia a dia. Para ele, coisas superficiais eram coisas como: assistir filmes, novelas, ouvir música, lavar o carro, fazer compras, viajar, sair para jantar com a mamãe, comer pizza com a família e cuidar da vovó; para que lavar o carro e cuidar da vovó se você consegue pagar alguém para fazer isso? Para que ir fazer compras coma mamãe ou jantar com ela, se ela tinha as amigas dela? E com esse pensamento mamãe e papai quase nunca tinham tempo juntos, mas não ligava muito para isso. Mas as vezes podia-se ouvir mamãe falar no telefone com a Chris (amiga dela) que ela sente falta dele. Falta dele.
Os dois ficaram ali, simplesmente parados, me observando. Não eram muito de falar. Não eram muito de se falar. Se eu parar para pensar, acho, apenas acho, que nunca os ouvi tendo uma conversa de verdade. Mas o silêncio deles era bem diferente do silêncio do hospital. Após algum tempo, Enfermeira Natália, quem meu pai achava uma bela enfermeira, os convidou para sair. Forçou ambos a saírem o mais rápido possível na verdade. E então eles partiram.
O hospital tem um silêncio que dá medo e para uma pessoa no meu estado o medo não estava sendo algo legal. Toda vez que fechava os olhos eu via aquele ser estranho me encarando, como se estivesse ali na frente da minha cama.
Quando deu aproximadamente, duas da manhã, uma enfermeira veio verificar como eu estava e mais ou menos, umas três da manhã eu vi o ser de novo. Levantei da minha cama e pensei "se for apenas uma visão, ótimo, é apenas uma lembrança" então eu me aproximei daquilo. Toquei sua mão. Toquei sua mão. Não era para ter tocado, você não sente uma coisa que não está lá. Isso significava que ele estava lá. Estava lá.
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