Hoje não escutei as vozes que me perturbaram no dia anterior. Talvez fosse apenas um surto. Não sei, mas seja lá o que for, minha mãe fez questão de contar para minha vó. Não seria um problema, se minha vó fosse qualquer outra vó no mundo, mas não é.
Chegamos na casa da minha vó por volta das 16 horas. Sentamos e minha vó tinha feito chá com biscoitos e ofereceu para minha mãe. A conversa começa como qualquer outra:
"Diga, minha filha, como está o traste do homem que você chama de marido?"Após muito se prolongar, minha mãe disse o que havia acontecido ontem e rapidamente minha vó me olhou com aqueles olhos, nunca vou esquecer aqueles olhos. Ela pediu para que minha mãe fosse comprar pão para que houvesse tempo sozinho comigo. Ela me chamou num canto e um pano branco veio em direção à minha boca.
Uma luz forte se acendeu enquanto eu abria os olhos e uma figura, ainda embaçada, se aproximava com certos aparelhos em mãos. A figura pálida começou a me cutucar e então sua voz, muito familiar, me disse:
" Eu sei muito bem que você não é meu netinho, agora me diga, quando planejam invadir? Vocês não podem vencer, nem mexer com minha família!"
Eu gritava com toda força, quase estourando meus pulmões:
"PELA AMOR DE DEUS VÓ!!! ME SOLTA!!! AGORA!!! QUE A SENHORA ESTÁ FAZENDO MULHER?!?"
Ela continuou uma longa conversa com quem ela acreditava ser um ser que havia me "possuído" e parecia que aquilo não teria fim. Apesar de muito estranho devo admitir que ela conversava com "eles", que era como ela se referia a mim quase que o tempo todo, de forma muito íntima, como se já se conhecessem faz tempo.
Não preciso nem dizer que quando minha mãe chegou, a reação dela não foi nem um pouco amigável. Ela começou a gritar com minha vó, me desamarrando e indo embora, batendo a porta e gritando como louca na rua, enquanto minha vó, ainda de avental, corria atrás dela gritando que "eles" vão me achar e que "eles" vão me matar.
Fora isso, meu dia foi normal.
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