domingo, 3 de março de 2013

22 de Fevereiro de 2013

O dia em que conversei com Julius foi um dia definitivo pra mim e pra minha ruína.


O Primeiro Dia no Hospício de São Nicolau
Lar dos Mentalmente Insanos para Reabilitação 

O hospício é um lugar diferente do que as pessoas dizem. Pelo menos no primeiro dia é. Talvez eu devesse esclarecer aqui o que houve para minha estadia no hospício ser iniciada.
No dia 18 de fevereiro eu tive uma conversa relativamente proveitosa com Julius no meio da aula de sociologia. Acontece que naqueles três ou cinco minutos de conversa, a minha querida professora de sociologia escutou a minha conversa com ele e, como Julius estava invisível aos olhos dos outros seres humanos, ela presumiu que eu estava conversando sozinho e me encaminhou para a coordenação. De lá, depois de uma longa conversa sobre a minha conversa com alguém que não existia, eu fui mandado diretamente para a casa de minha mãe e para ela eu não omiti a verdade.
Nossa conversa já começou aos gritos e mamãe não quis saber se eu estava dizendo a verdade ou se estava mentindo, se eu estava louco ou querendo chamar a atenção. Tudo o que eu sei é que depois de muita discussão minha avó entrou pela porta com o meu avô.
- O que ELE está fazendo aqui?
- Viemos atrás do Charles, minha filha. Ah! Aí está você Charles. Por favor querido, faça suas malas, pegue apenas o essencial, precisamos partir o mais rápido possível. Minha filha, por favor, ajude seu pai a colocar suas malas no carro também. Vamos! Andem, andem!
- PAREM! Vocês não vão sair dessa casa com meu filho. Vocês acham que eu enlouqueci!? Charles, por favor, largue essa mala, sua vó não vai te tirar dessa casa.
- Minha filha, escute seu pai - disse Thomas colocando suas mãos sobre as mãos de minha mãe - Eu sei que no passado eu errei, mas precisamos pensar no Charles. Ele corre grande perigo, precisamos tirá-lo daqui.
Minha mãe parou por um segundo e analisou toda aquela cena. Encarou meu avô por mais alguns minutos e assentiu com a cabeça.
- Realmente, Charles, você está em grande perigo. Vá para o seu quarto e faça suas malas; mamãe e papai, vocês fiquem aqui enquanto eu faço minhas malas.
Assim que terminei de colocar apenas o essencial nas malas, como cuecas, meias, blusas, calças, bermudas, objetos de higiene pessoal e tudo mais, eu desci para sala e lá estavam os meus avós sentados no sofá. Logo em seguida veio minha mãe passando direto por nós para o portão. Ela o abriu e cinco homens vestidos de brancos entraram na sala, agarrando Thomas com uma injeção que o fez cair no chão. Vovó começou a gritar e tentou bater nos homens de branco. Mamãe chorava muito e apontou para mim. Senti uma pequena pontada no pescoço e ouvi mamãe dizendo.
- Sim, meu filho estava em perigo. Agora não está mais. 
Com um tremendo baque no chão, eu caí em um sono profundo. 

Algumas horas depois me dei conta que eu estava passando pela porta dos letreiros caídos do lar para pessoas mentalmente insanas de São Nicolau, o mesmo lugar onde estava meu avô por mais de treze anos. Tudo parecia mais assustador do que na primeira vez que entrei lá. Acho que porque da primeira vez eu sabia que iria sair de lá, mas dessa vez não havia saída. 
O corredor principal parecia mais frio do que o normal e dessa vez minha visão era do teto. As luzes passavam rapidamente por cima de mim enquanto minha mãe era levada por um senhor para a recepção. No elevador um homem de terno entrou e ficou do meu lado. Olhou para mim e com um sorriso malicioso disse:
- Vamos nos divertir muito, sabia? Adoro a sua família, acho que é genético, não é mesmo? Mais um Gargiulli para animar a casa. He he, haha!