Chegando em casa eu não espera nada menos do que um belo discurso da minha adorável mãe. Mas ao invés disso a recebi com os olhos cheios de lágrimas e me mandando subir e não sair do meu quarto até que fosse ordenado.
Vindo da minha mãe eu não saberia dizer o que seria pior, mas sabia que com certeza deveria obedecê-la sem questionar, então subi para o meu quarto e lá fiquei até a manhã de hoje. Levantei com a luminosidade invadindo o meu quarto e com o relógio que não despertara. Havia, com certeza, perdido hora de ir pra escola e portanto não haviam motivos para levantar da cama. Fiquei deitado por mais uns cinco minutos quando ouvi algo estranho vindo do andar debaixo. Algo do tipo: "fale mais baixo ou o menino vai acordar!" em tom de um leve sussurro, um sussurro nada baixo.
Desci as escadas na ponta dos pés, pois era óbvio que se referiam a mim quando falando que "o menino vai acordar". Sorrateiramente segui o som das vozes que partiam da cozinha, chegando a porta, que estava meio aberta, eu parei e comecei a escutar a conversa.
- Você não pode ficar escondendo do menino aquilo que está para acontecer. - dizia uma voz trêmula e rouca que lembrava muito da voz de minha avó.
- Eu não vou voltar nesse assunto, mamãe. - disse minha mãe como quem queria dar um basta na conversa.
- Minha querida, preste atenção ao seu redor. As coisas que estão acontecendo; você não acha muito estranho que o garoto esteja escutando essas vozes? Não acha estranho que esteja acontecendo exatamente aquilo que meu marido, seu pai, nos alertou?
- Não-toque-no-nome-do-papai. - mamãe sibilou em tom de puro nervosismo - Sabemos muito bem o que foi que aconteceu com ele. Se o charles soubesse ...
- Talvez seja a hora de eu realmente levar o menino, Helena, talvez esteja na hora de deixá-lo partir. Fazer aquilo que ele nasceu para realizar.
- NÃO OUSE ENTRAR NA MINHA CASA E LEVAR MEU FILHO DE MIM! - mamãe cuspia fúria para todos os lados, seu pescoço nunca estiver tão vermelho - NÃO VOU DEIXAR QUE ACONTEÇA COM ELE O QUE ACONTECEU COM O PAPAI, A SENHORA ESTÁ ME OUVINDO? SERÁ QUE ESTOU SENDO CLARA O SUFICIENTE, MAMÃE? EU O AMO E NÃO QUERO QUE ELE SOFRA ESSE DESTINO, NÃO VOU AGUENTAR PERDÊ-LO! NÃO DE NOVO .... de novo não - abaixou a voz e sentou no sofá, estava chorando.
- Minha filha, já falamos sobre isso...
- Meu filho está sendo tachado de louco mamãe, ele não é a fonte de energia de nada, meu filho está ficando louco e eu preciso de ajuda. Se tudo que a senhora tem a me oferecer é isso, então pode se retirar. - disse dona Helena apontando para a porta.
- Seu pai não é louco sabia? Ele sabe das coisas, aquilo foi um deslize. Charles vai precisar de muito mais ajuda do que um psicólogo, Helena, não será nada fácil, as coisas que estão por vir...
- PRESTE ATENÇÃO MAMÃE - ela voltou a gritar - MEU FILHO NÃO É FONTE DE NADA, ELE É... ELE É, APENAS ESTÁ PASSANDO POR UMA FASE DIFÍCIL. Eu não posso, não agora. ELE ESTÁ PERDENDO A CABEÇA MAMÃE.
A porta se abriu um pouco. Lá estava parado o menino tachado de louco.
- Charles! - exclamou vovó num tom de surpresa.
- Filho - disse minha mãe se virando para a porta - Você ... é ... estava ouvindo isso tudo?
- Ouvi e, certamente, gostaria de ouvir muito mais. A vovó disse que o vovô sabe das coisas, mas vocês sempre me disseram que meu avô morreu. Não era correto, então, usar sabia?
As duas se entreolharam com um certo receio e nervosismo. Poucos segundo depois, que me pareceram uma eternidade, as duas fizeram uma aceno com a cabeça em sinal de concordância e minha mãe voltou a falar, de forma calma e ordenada.
- Em 1989, seu avô estava conversando conosco em um almoço de domingo, toda a família estava reunida a mesa rindo e conversando. Seu avô, Thomas Gargiulli, se aproximou da minha mesa perguntando seu já tinha planejado ter um bebê com meu marido, seu pai. Responde que estávamos seriamente pensando no assunto e que esse fora o tópico de nossas conversas por dois longos meses, seu avô, claro, pareceu muito animado com a notícia e passou a tarde toda comentando o quanto ele seria feliz se tivesse um neto. Alguns anos foram se passando e todo almoço de domingo se tornara a mesma coisa: seu vô se aproximava da minha mesa, perguntando sobre o meu futuro bebê e se esbaldava na ideia de ter um neto.
"Quando ele descobriu que finalmente havia engravidado, ele ficou muito contente e espalhou para todo mundo. Você, antes mesmo de nascer, já era o motivo de felicidade de muita gente, Charles. No dia de seu nascimento, porém, seu avô não apareceu. Ele, de fato, ficou por volta de dois ou três dias sem aparecer para nos ver. Todos estávamos preocupados, mas sua vó dizia para não nos preocuparmos, ainda não.
Depois desses dois dias, seu avô apareceu no hospital em um estado pálido, sem fazer a barba e com cheiro de álcool muito forte saindo do seu hálito. Parou do meu lado e começou a me contar como aquele menino era importante e como ele mudaria as coisas de um jeito que ninguém jamais previa, que deveríamos proteger você a todo custo e que você era puro. Ele começou a me assustar do jeito que começou a falar e então, depois de muito discurso sobre o quanto você mudaria o modo como as pessoas vêem o mundo, ele se afastou tranquilamente, cambaleando e beijando a testa do meu marido. Tentamos ignorar esse fato até que o dia do seu aniversário de um ano chegou."
" Estávamos todos comemorando em muito estilo o seu primeiro ano de vida, Charles e nunca vira você tão feliz. Seu sorrisinho quase sem dentes era um doce de visão e a sua volta não existia quem ficasse triste. Depois de cantado o parabéns, seu avô invadiu a festa. Invadiu não porque ele não havia sido convidado, mas porque ele derrubou a porta e correu em minha direção. Agarrou você do meu colo e começou a correr, colando-o num carro e acelerando cada vez mais, seu avô fez todos na festa tremerem. Seu pai, obviamente, ligou o carro e o seguiu até uma praia deserta onde eles pararam seus carros. De acordo com seu pai, Thomas o segurava no alto das mãos dizendo que, Femetrius, Caterius ..."
- Demetrius - eu interrompi e pedi para que ela continuasse.
- Enfim, ele te segurava nas mãos dizendo a Demetrius que - ela pausou e olhou para mim - como você sabe o nome que ele falou?
- Não importa. Não agora, continue a história por favor.
- Está bem - continuou ela - dizendo que Demetrius não poderia ter energia pura se a única fonte de energia pura estivesse morta. Ele olhou para seu pai e disse para ele não se preocupar, que estava fazendo a coisa certa, que matar você salvaria um mundo inteiro. Graças a meu bom Deus, seu pai conseguiu derrubar Thomas bem a tempo de ele te jogar penhasco abaixo. Claro que como consequência desse ato, seu avô está, hoje, internado em uma clínica para pessoas que são ... bem... loucas, sabe? Entende porque mentimos sobre seu avô? Ele tentou tirar meu bebê de mim, tirar a vida da minha alegria, eliminar você do mundo por causa de uma ideia completamente sem sentido, sem fundamentos. Não existem seres vindos de Ogloom, não existe Demetrius e nem mesmo fontes de energia pura. Seu avô era, e ainda é, um homem fora de si que chegou a era senil e já não fala mais nada com nada. Eu não quero que você acabe como ele, meu filho. Por isso eu nossa família decidimos que seria melhor que não conhecesse seu avô, mas também pensasse que ele estivesse morto para que, assim, pudéssemos evitar perguntas constrangedoras.
Parecia que minha mãe não respirava faia séculos. Ela agora estava ofegante e seu rosto extremamente vermelho, suas veias saltavam para fora do pescoço e ela recomeçou a chorar. Por um instante tinha sentido muita raiva dela. Como pôde minha própria família esconder a verdade sobre meu avô? Ele estava vivo e todos disseram que ele estava morto, mas depois de um tempo senti pena. Ela apenas fez o que julgou ter sido melhor, quer dizer, aquele homem tentou roubar-me dela. Não tive como continuar aquela conversa, mas terminei dizendo o seguinte:
- Quero conhecer meu vô. Sem mais nem menos.
Virei-me sem olhar para as duas e retornei ao meu quarto. Fiquei o dia todo sentado olhando para teto, com vários intervalos para assistir uma televisão, jogar videogame, ler um livro e comer. Contudo, não consegui prestar mais atenção em nada, apenas pensei que tudo aquilo parecia cada vez mais real.
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